07 fevereiro 2009

o estrangeiro


Movido pela menção de Humberto Werneck (post de 29 de janeiro), voltei a ler O estrangeiro. Busquei minha “amarelecida” edição de bolso portuguesa, sem data, adquirida em maio de 1981, conforme registrei na primeira página.
O Estrangeiro relata uma sequencia simples de acontecimentos: um homem enterra sua mãe, arranja uma amante, comete um crime, é julgado. Uma sequencia que desvela o absurdo da existência, e provoca grande desconforto no leitor. Há evidentes ressonâncias entre O estrangeiro de Camus e O processo de Kafta. No primeiro, um crime que não é propriamente aquele pelo qual o réu é processado. No segundo, o processo sem que o réu conheça o seu crime... Em ambos, a culpa de ser (a propósito, inventada e fomentada pelo mito judaico-cristão do pecado original).
De fato, o estrangeiro é julgado não pelo assassinato de um homem, mas antes por não haver chorado no funeral da mãe; por não lhe ter guardado o “devido” luto; por não ter mantido o comportamento que se espera de uma boa alma cristã: “Sim – exclamou ele [o promotor público] com força –, acuso este homem de ter assistido ao enterro da mãe com um coração de criminoso”.
O julgamento que não é apenas o do herói do livro, como não é do crime que o levou ao banco dos réus. Daí porque ele assim descreve as “caras” que o observavam:
Todas me olhavam: percebi que eram os membros do júri. Mas não sou capaz de dizer o que os dintiguia uns dos outros. Tive apenas uma impressão: eu estava no banco de um eléctrico e todos estes passageiros anônimos espiavam o recém-chegado para lhe observar os ridículos. Sei perfeitamente que esta ideia era parva, pois aqui não era o ridículo que eles procuravam, era o crime.


A incapacidade do capelão de aceitar o ateísmo do condenado é emblemática das diferenças entre crentes e ateus, da impossibilidade que estes demonstram de ver alem da própria fé. Diante da intransigência do religioso em oferecer o consolo da religião, o protagonista reage com condescendência, até onde pode suportar a insistência daquele.
“Todos que conheci no seu caso se voltaram para Ele.” [afirma o capelão] Reconheci que estavam no seu direito. Isso provava também que tinham tempo. Quanto a mim, não queria que ninguém me ajudasse e justamente faltava-me tempo para me interessar pelo que não me interessava.
Minha edição traz um prefácio de Sartre, naquilo que teve de melhor. Embora centrado nas conexões entre o romance e a sua tradução filosófica do mesmo autor – O Mito de Sísifo –, é uma das mais claras sínteses do existencialismo que conheço, e que muito me marcou quando a li pela primeira vez. O absurdo, esclarece Sartre, é
o divórcio entre as aspirações do homem à unidade e o dualismo intransponível do espírito e da natureza, entre o impulso do homem em direcção ao eterno e o caráter finito da sua existência, entre a “preocupação” que é a sua própria essência e a inutilidade de seus esforços. A morte, o pluralismo irredutível das verdades e dos seres, a ininteligibilidade do real, o acaso, eis os pólos do aburdo
Ler O estrangeiro é entrar em contato com o absurdo absoluto. O absurdo para além rasteiro e demasiadamente mesquinho absurdo da vida cotidiana, especialmente dessa nossa, brasileira.

PS. A intransigência, que mencionei acima, é a mesma doas atuais criacionistas, em seu embate com evolucionistas; e dos crentes em relação aos ateus confessos (um bom exemplo aqui). Ela aparece mais do que nunca agora, quando ocorre uma tomada de posição pública, inclusive no mundo acadêmico, em favor do ateísmo, acompanhada da censura escrachada da Igreja a essas manifestações. Exemplos da militância ateísta são os livros de Deus, um delírio do ingles Richard Dawkins e Tratado de ateologia do Frances Michel Onfray.

ILUSTRAÇÃO:
Corner sink, óleo de Kate Lehman

darwin

Aluizio Amorin recomenda em seu blog, e repasso aqui: The Complete Work of Charles Darwin Online, um site com vasto material audio-visual.



Compartilho também o sensacional Darwin de Baptistão.

05 fevereiro 2009

afinidades



Por quê (quase) sempre nos demos tão bem com os italianos? (para acessar com som)

Ilustração: Vittorio Gassman como Brancaleone


03 fevereiro 2009

o papabaca


Mestre Yoda,
a vaidade é pecado?
e o sectarismo?
e o nazismo, é pecado?

no traço de Baptistão


personalidades perigosas


A propósito de um tema que vem recebendo cada vez mais atenção nos círculos especializados, assim como na mídia, transcrevo um questionário idealizado pelo psiquiatra norte-americano Stuart Yodofsky, autor de Fatal Flaw (2005). O objetivo desta "escala" (no jargão psiquiátrico) é auxiliar parentes e outras pessoas próximas a identificar problemas sérios de personalidade, prevenindo-se ou buscando ajuda.

SUSPEITANDO DE ALGO

1. Eu confio nesta pessoa?

2. Essa pessoa costuma levar a sério os seus compromissos?

3. Esse relacionamento me faz me sentir melhor comigo mesmo?

4. Essa pessoa tem a mesma consideração para com as minhas necessidades que tem para com as necessidades dela?

5. Essa pessoa é sensível e afetuosa para comigo?

6. Essa pessoa é honesta em relação a questões importantes do nosso relacionamento?

7. Essa pessoa é honesta e confiável em outros relacionamentos?

8. Eu (e meus filhos) me sinto sempre seguro com esta pessoa?

9. Essa pessoa respeita as regras e obedece as leis?

10. Outras pessoas que eu amo e em quem confio acreditam que esta pessoa seja boa para mim?


ALGO MAIS QUE UMA SUSPEITA

1. Essa pessoa insiste em se envolver em atividades impulsivas, desnecessariamente perigosas ou auto-destrutivas?

2. Essa pessoa nega que tenha um problema?

3. Ela recusa ajuda profissional para o seu problema?

4. Ela permanece sem fazer mudanças apesar de muitas tentativas de ajuda profissional?

5. É possível que no futuro esta pessoa venha a me agredir (ou a meus filhos)?

6. Essa pessoa se mantém envolvida em algum tipo de ato ilegal?


Tratei do tema também no post de 25.out.2008


blogs & saúde mental


Quando o remédio é escrever
Efeitos terapêuticos de manter blogs atraem atenção de pesquisadores 
por Jessica Wapner
A busca por uma vida mais saudável pode ser um dos motivos do enorme aumento do número de blogs. Estima-se que sejam cerca de 3 milhões por todo o planeta. Cientistas e escritores há anos conhecem os benefícios terapêuticos de escrever sobre experiências pessoais, pensamentos e sentimentos. Mas, além de servir como um mecanismo para aliviar o stress, expressar-se por meio da escrita traz muitos benefícios fisiológicos. Pesquisas mostram que com a prática da escrita é possível aprimorar a memória e o sono, estimular a atividade dos leucócitos e reduzir a carga viral de pacientes com aids e até mesmo acelerar a cicatrização após uma cirurgia. Um estudo publicado na revista científica Oncologist mostra que pessoas com câncer que escreviam para relatar seus sentimentos logo depois, se sentiam muito melhor, tanto mental quanto fisicamente, em comparação a pacientes que não se deram a esse trabalho.
Continua aqui, na revista Mente&Cérebro deste mês.


01 fevereiro 2009

versus Gray


Após muito ouvir falar de Cachorros de palha, um best seller do filósofo inglês John Gray, decidi finalmente lê-lo, fisgado pelo instigante subtítulo do livro: “reflexões sobre humanos e outros animais”. Animalidade versus humanidade é um debate antigo, moderno, contemporâneo, permanente e presente. E mais: a expressão "outros animais" vem acompanha da de um saco de interpretações disponíveis, ao gosto de cada freguês, o que pode tornar a conversa ainda mais interessante



O livro inicia-se assim:

“Atualmente, a maior parte das pessoas pensa que pertence a uma espécie que pode ser senhora de seu destino”.

Em princípio, estamos de acordo. Desde Darwin, como o próprio Gray afirmará mais adiante, sabemos que somos animais determinados fortemente por nossa herança evolutiva. E, mesmo fora desse campo, não são poucos os pensadores que vêm demolindo os pilares da crença moderna na racionalidade como o elemento supremo do desenvolvimento humano, passando por Schopenhauer, Nietzsche e Freud. Sigamos, então, com John Gray, na sequencia da primeira frase:

“Isso é fé, não ciência. Não falamos de um tempo em que as baleias ou os gorilas serão senhores de seus destinos. Por que então os humanos?”

Fim do primeiro parágrafo, e já temos o bastante para nos atracarmos. É que, a seguir, o autor comete uma brutal simplificação ao dizer que, segundo Darwin,

"as espécies são apenas aglomerados de genes interagindo aleatoriamente uns com os outros e com seus ambientes em permanente mudança. Espécies não podem controlar seus destinos”.

O ser humano - nos informa - não pode controlar o seu destino pois é uma espécie animal, e, em assim sendo, não passa de um aglomerado de genes! Os lógicos chamam isso de "falácia". Tratar humanos e outros animais como se nenhuma diferença existisse (até porque existem entre cada espécie) é uma cabeça de cobra que come seu próprio rabo, fazendo os extremos se tocarem. É uma visão especular da afirmação de que "humanos" e "animais" estão definitivamente separados em âmbitos ontológicos diversos, e que, portanto, devem ser tratados como coisas totalmente distintas.

A lógica cartesiana que insiste em não calar. E, se você não compartilha uma perspectiva dicotômica de mundo, como fica? Então não há encontro possível entre o homem e os "outros animais"? Onde buscar a imprecisa fronteira entre essas matérias irreconciliávies - a matéria pensante (cultura) e a materia extensa (natureza). Toda a linha de raciocínio assenta-se na dicotomia rasteira entre animalidade e humanidade, como se a solução do dilema necessariamente passasse pela eliminação de um dos termos (assim opera a lógica linear).

É claro que somos “como os outros animais” naquilo que mais nos foge à volição e à consciência (ou seja, a maior parte de nós). Mas não somos apenas isso. Não podemos ser comparados a baleias, embora estejamos, sim, muito próximos aos gorilas. A propósito, estudos mostram que um chimpanzé (que é, de fato, o nosso parente mais próximo) adulto, pode ter uma inteligência comparável a de uma criança de até três anos de idade. Temos, portanto, muitos “anos de idade” a nos separar dos chimpanzés, que estão praticamente juntos conosco no topo da escala evolutiva. Compartilhamos com nosso parente pelo menos 97% do genoma. Se o genoma fosse, por si só determinante, então seríamos 97% parecidos... (Tantos anos de idade, e tão poucos genes de diferença. Os 3% devem ser especiais!)

Tudo o que aqui relato se passa nas duas primeiras páginas do livro, na primeira seção do primeiro capítulo, intitulada problematicamente de “Ciencia versus Humanismo”. Em duas páginas, John Gray antecipa uma contraposição entre humanistas e os darwinistas esclarecidos, entre os quais se inclui. Uma oposição derivada de sua muito particular interpretação do "humanismo": “Os humanistas insistem em que, usando nosso conhecimento, podemos controlar nosso ambiente e florescer como nunca”.

O progresso, nessa versão do humanismo, seria um sucedâneo secular do cristianismo. Gray insiste na fórmula humanismo = religiosidade. Ora, o humanismo iluminista fundamentou-se na forte crença de que a racionalidade e a ciência poderiam dar conta de todos os problemas humanos e guiar-nos rumo ao horizonte radiante do progresso (tal como nos painés ufanistas da época do realismo socialista) e nao há dúvidas de que existe um tanto de "religiosidade" nessa crença, de cristianismo sublimado. Entretanto, mesmo para esse humanismo, racionalidade e ciência andam juntas, e ambos são caminhos para a verdade. O Iluminismo foi fruto das reações deflagradas contra os dogmas religiosos. É essencialmente anti-clerical, ou, pelo menos, contrário ao catolicismo dos rebanhos de pobres de espírito. Estão no centro do humanismo a busca do conhecimento e o aprendizado da liberdade, para além dos dogmas religiosos. Se Gray falasse de uma oposição humanismo versus teologismo, até faria sentido, mas não versus a ciência.

Para confundir, entretanto, ele critica o humanismo, tal como o concebeu, a partir otimismo extremado de um darwinista do calibre de Edward Wilson, que teria afirmado: “como um deus, a humanidade estará na posição de assumir o controle de seu destino” (pelo menos é assim que é citado por Gray). É ingênuo, não há dúvidas, pensar que o controle racional determina o futuro do indivíduo – e aqui podemos recorrer a Freud –, tanto quanto o futuro da humanidade – e aqui o próprio Darwin se encarrega de colocar por terra nosso auto-engano da superioridade humana a partir da unção divina, na melhor tradição judaico-cristã. Além de tudo, já sabemos que o acaso é o grande senhor do nosso destino (idéia que tem amparo não apenas na filosofia, como também nas ciências físicas: termodinâmica, entropia, etc.).

Somos bem mais que aglomerados de genes. Ainda outro dia revi o filme de Kubrick, 2001 – Uma odisséia no espaço. Não foi pequeno o percurso daquele osso que sobe aos céus pra se transformar numa estação espacial (que já existe em nossos dias). Entretanto, como quer o heideggeriano Gray, "a humanidade não dominará jamais a tecnologia", que nada mais é do que "um evento que calhou acontecer no mundo".

Todos os eventos do mundo calham de acontecer no mundo, meu caro Gray. Mas isto é uma tautologia vazia. Ele prossegue afirmando que foram as tecnologias que permitiram que a humanidade perpretasse tantos crimes, e que sem estradas de ferro, telégrafo e gás venenoso não teria havido o Holocausto. Seguramente não teria sido do jeito que foi, mas o gênio humano sempre se renova, se inova e se repete. Na falta de outra coisa, poderia ter sido com fogueiras humanas, maquinas supliciantes ou simples enforcamento.

A humanidade não precisa de novas tecnologia para cometer barbaridades, embora as utilize também para isto. Ela precisa das tecnologias para manter e expandir as fronteiras da própria tecnologia, em favor da sobrevivência da espécie. As tecnologias causam problemas e soluções. Nao são boas ou más a priori. E para não deixar de lado os grandes feitos tecnológicos da humanidade, muito antes de termos criado a bomba atômica, ido ao espaço, realizado transplantes de órgãos e descoberto o genoma humano, fomos capazes até de escrever livros e, mais importante ainda, de torná-los acessíveis através da imprensa. Livros que fazem alguma diferença entre nós e os outros animais. Livros como Cachorros de palha, que devem ser cautelosamente lidos.

Vou seguir lendo, por teimosia e curiosidade, e voltarei a postar a respeito. Especialmente se John Gray for me convencendo de que me precipitei, ou, mais ainda, de que ele está com a razão! Ou então que outro leitor encarregue-se de fazer isso. As inscrições estão abertas.

as palavras & o tempo


Ainda a propósito de tristeza e luto (post anterior), uma pérola de psicologia na prosa de Milton Hatoum, em sua melhor forma:


Eu não conseguia sair de perto de Domingas. Um curumim do cortiço foi entregar um bilhete a Rânia. Escrevi: "Minha mãe acabou de morrer".
Naquela época, tentei, em vão, escrever outras linhas. Mas as palavras parecem esperar a morte e o esquecimento; permanecem soterradas, petrificadas, em estado latente, para depois, em lenta combustão, acenderem em nós o desejo de contar passagens que o tempo dissipou. E o tempo, que nos faz esquecer, também é cúmplice delas. Só o tempo transforma nossos sentimentos em palavras mais verdadeiras, disse Halim durante uma conversa, quando usou muito o lenço para enxugar o suor do calor e da raiva ao ver a esposa enredada ao filho caçula.

Milton Hatoum,
Dois irmãos

30 janeiro 2009

primatemaia disseminada


Os humanos na Terra comportam-se, de alguma maneira, como um organismo patogênico ou como células de um tumor ou neoplasma. Crescemos em número e em transtornos para Gaia a ponto de nossa presença ser perceptivelmente inquietante (...) a espécie humana é agora tão numerosa que constitui uma séria moléstia planetária. Gaia está sofrendo de
Primatemaia Disseminada.

James Lovelock, citado por John Gray em Cachorros de Palha, sobre os efeitos do Homo rapiens sobre a Terra.


os crentes


Os crentes e sua necessidade de crença.

A crença é sempre desejada com a máxima avidez, e mais urgentemente necessária onde falta vontade: pois é a vontade, como emoção do mando, o sinal distintivo de autodomínio e força. [...] Onde um homem chega à convicção fundamental de que é preciso que mandem nele, ele se torna "crente"; inversamente, seria pensável um prazer e força de autodeterminação, uma liberdade da vontade, em que um espírito se despede de toda crença, de todo desejo de certeza, exercitado, como ele está, em poder manter-se sobre leves cordas e possibilidades, e mesmo diante de abismos dançar ainda. Um tal espírito seria o espírito livre par excellence.

Nietzsche, em A gaia ciência, título que significa algo como "o alegre saber" .


29 janeiro 2009

antologia - humberto werneck


O Estado de S. Paulo, 25 de janeiro de 2009

‘Drummond deu voz ao que não consigo dizer’

"Nascido em Belo Horizonte, Humberto Werneck (1945) jornalista há mais de 40 anos, tendo passado por alguns dos principais órgãos da grande imprensa brasileira, como Jornal da Tarde, Veja, Jornal do Brasil, Isto É, Jornal da República e Playboy. Tornou-se jornalista em maio de 1968, levado pelo contista Murilo Rubião para o Suplemento Literário do Minas Gerais, diário oficial do governo mineiro.

É autor, entre outros, de O Desatino da Rapaziada, retrato da geração de escritores mineiros, como Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos e Fernando Sabino, que se renderam ao jornalismo, de O Santo Sujo, biografia de Jayme Ovalle, e de Pequenos Fantasmas, livro de contos.

Werneck organizou Minérios Domados, seleção da poesia de Hélio Pellegrino, e Boa Companhia, reunião de trabalhos de 42 cronistas. Escreveu a reportagem biográfica de Chico Buarque para Tantas Palavras (2006), sobre a obra do compositor. Está trabalhando em dois projetos - um livro infanto-juvenil sobre Belo Horizonte e O Pai-dos-Burros, Dicionário de Lugares-Comuns e Frases Feitas.

Que livro você mais relê? E qual a sua impressão das releituras?

Claro Enigma, de Carlos Drummond de Andrade, sempre me reserva alguma surpresa -- e também humilhação: como pude passar tantas vezes por um verso sem me dar conta de toda a riqueza que há nele?

Dê exemplo de um livro muito bom injustiçado, pelo público ou pela crítica.

João Ternura, o romance de Aníbal Machado, não recebeu ainda a atenção que merece. Não vale botar toda a culpa no título enjoativo.

Cite um livro que frustrou suas melhores expectativas.

O Velho e O Mar, de Ernest Hemingway. Aquele sujeito discursando para aquele peixe... humm...

E um livro surpreendente, ou seja, bom e pelo qual você não dava nada.

Três Mulheres de Três PPPês, de Paulo Emílio Salles Gomes. Puro preconceito: como se um ótimo ensaísta não fosse capaz de produzir ótima ficção.

A boa literatura está cheia de cenas marcantes. Cite algumas de sua antologia pessoal.

A revelação tardia de Diadorim aos olhos de Riobaldo no Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. Dona Severina vendo dormir Inácio no conto Uns Braços, de Machado de Assis. E tudo aquilo que (não) acontece em Frederico Paciência, de Mário de Andrade.

Que personagens são tão marcantes que ganham vida própria na sua imaginação de leitor?

Capitu, de Machado. Lolita, de Nabokov. Emma Bovary, de Flaubert. Jay Gatsby, de Fitzgerald. E um vasto etc.

Que livro bom lhe fez mal, de tão perturbador?

O Estrangeiro, de Albert Camus.

E que livro mais o fez pensar?

As Palavras, de Sartre.

De qual autor você leu tudo, ou quase tudo?

Carlos Drummond de Andrade, por dar voz a muito do que não consigo dizer.



Existe algum autor como o qual você jamais perderia seu tempo?

Vários. Até por isso, não perderia tempo em citá-los.

Cite um livro que foi fundamental em sua formação, mesmo que hoje você não o considere tão bom como na época em que o leu.

O Encontro Marcado, de Fernando Sabino, lido e relido desde os 12 anos de idade. Continuo achando que é um grande romance.

Você considera a literatura policial um gênero menor?

Não pode ser considerado menor um gênero a que pertença O Falcão Maltês, de Dashiel Hammett.

Os livros de autoajuda são mesmo todos ruins, ou isso é puro preconceito da crítica?

Sou contra a automedicação. Drogas, só com receita médica.

Um livro meio chato, mas bom.

Se é meio chato, é no máximo meio bom.

Um livro que você acha que deve ser muito bom mas jamais leu.

A Montanha Mágica, de Thomas Mann. Em diversas investidas, nunca passei do meio da encosta. É dessas leituras que requerem uma hepatite.

Um livro difícil, mas indispensável.

O Som e a Fúria, de Faulkner.

Um livro que começa muito bem e se perde no caminho.

A Bíblia. Não é que se perca: fica menos interessante d.C.

Um livro que começa mal e se encontra.

Os Sertões, de Euclides da Cunha. É chão demais até chegar à luta...

Um livro ruim, por ser pretensioso.

Qualquer um que pretenda ser ‘um vasto painel de época’.

Que livros ficariam melhores se um pedaço fosse suprimido?

Vários. Proponho uma Teoria da Vênus de Milo, segundo a qual muita obra melhora se bem aparada. Conheci um editor americano que queria meter a faca no Drácula, cortando tudo o que não seja canino na carótida. Achava que Bram Stockler, com sua fastidiosa descrição da Transilvânia, era uma espécie de Euclides da Cunha de A Terra. Um Euclides do sobrenatural, digamos.

De que livro você mudaria o final?

Livro cujo final precise ser mudado não vale esse esforço.

Cite exemplos de livros assassinados pela tradução e exemplos de boas traduções.

Devem ser boas as traduções dos livros de Paulo Coelho. Não têm erros de português.

A literatura contemporânea é muito criticada. Que livro publicado nos últimos dez anos mereceria, para você, a honraria de clássico?

Vista do Rio, romance de Rodrigo Lacerda.

Para que clássico brasileiro, de qualquer tempo, você escreveria um prefácio incitando à leitura?

O Amanuense Belmiro, de Cyro dos Anjos, se Antonio Candido já não tivesse escrito antes, e com incomparável competência.

Que livros (brasileiros ou estrangeiros) sempre presentes nos cânones que não mereceriam seu voto? E um sempre ausente no qual você votaria?

Sinto falta de O Quarteto de Alexandria, de Lawrence Durrell. E nenhuma de José de Alencar.

Quais bons autores você só descobriu alertado pela crítica?

Carlos Sussekind, por exemplo, ao ler um artigo de Hélio Pellegrino saudando o lançamento de Armadilha para Lamartine, nos anos 70.

Cite um vício literário que você considera abominável.

O empenho em enfeitar o texto - aquilo que João Cabral chama de perfumar a flor.

Que virtude mais preza na boa literatura?

O poder que têm alguns livros de se desgrudar da literatura e se incorporar à experiência do leitor, ajudando-o a viver."


Foto de Nemo Nox


28 janeiro 2009

catástrofe & solidariedade



(Sugiro associar a leitura deste post)


As grandes catástrofes climáticas que atingem de tempos em tempos Santa Catarina, como ocorreu recentemente, são seguidas de extensas reações de solidariedade em todo o país. Tal mobilização coletiva coloca em questão um dos pressupostos mais difundidos a respeito da sociedade contemporânea, já abordado inclusive em artigos anteriores: o de que, em nossos dias, o individualismo (leia-se: egoísmo) só faz crescer, e, em contrapartida, os laços sociais se fragmentam.

Felizmente, nada é tão linear ou tão simples quando se trata do ser humano. Assim como forças homogeneizantes da globalização encontram resistências no renascimento das culturas locais (movimentos separatistas e de revalorização étnica, fundamentalismos religiosos, tribalismos e neotribalismos), da mesma forma, há resistências às forças desagregadoras do tecido social.

Existem alguns dilemas morais contemporâneos, que estabelecem uma relação dialética entre egoísmo e altruísmo, individualismo e solidariedade, honestidade e desonestidade. Há, por um lado, fortes tendências ao incremento da competitividade e do narcisismo cultural, que impulsionam as pessoas a buscarem o interesse próprio a todo custo, numa espécie de “salve-se quem puder” ou “cada um por si e Deus por todos”. Mas, como tudo o mais na sociedade, há forças que agem em sentido contrário a estas tendências. Não fosse assim e não veríamos ações de defesa à ecologia mobilizando pessoas ao redor do globo, e que são fundamentalmente de natureza solidária e altruística; o florescimento de uma cultura do voluntariado, que leva pessoas desinteressadas a se engajarem em atividades de apoio a quem mais necessita; uma crescente consciência de cidadania acompanhada de maior responsabilidade pela participação nos espaços de decisão coletiva; e maior respeito às diversidades inerentes à condição humana.



Algumas teorias da “psicologia evolucionista”, ou darwinista, que entende o comportamento humano a partir daquilo que foi mais adaptativo para a sobrevivência da espécie, nos dão pistas sobre o que acontece. A propósito, um dos motivos para se gostar dessa perspectiva é que ela coloca a solidariedade social no centro da “natureza humana”. Natureza que, por sua vez, nos torna culturais e, nesta condição, nos faz sermos fundamentalmente cooperativos. Ou seja, se tivesse predominado na evolução as forças egoístas sobre aquelas da solidariedade e da cooperação, a espécie humana não teria sobrevivido. Assim, amor, piedade, generosidade, remorso, afeição amistosa e confiança duradoura, por exemplo, são partes de nossa herança genética (tanto ou mais quanto os sentimentos hostis).

Além disso, os estudos de psicologia têm revelado o que sabemos intuitivamente: que ajudar o próximo pode fazer tão ou mais bem a quem o faz do que a quem recebe. Isto talvez seja uma expressão da herança evolutiva mencionada acima. Apesar de tudo, há sempre os saudosistas que insistem em achar que “antigamente era tudo melhor” – seja lá que “antigamente” é este. As grandes catástrofes que vivemos de perto ensejam oportunidade para que esta cômoda crença seja confrontada.



Foi a civilização ocidental que inventou os direitos humanos e pregou – a partir do Iluminismo – a necessidade de autonomia individual e de liberdade, a capacidade de pensar por si mesmo recorrendo à razão, e a aspiração ao progresso. Não nos esqueçamos, entretanto, que apesar da crença na “racionalidade moderna”, a humanidade deu abrigo, até muito recentemente, a comportamentos auto-destrutivos e bastante primitivos: o racismo, a escravidão, a desigualdade entre os sexos, a discriminação das minorias, o terrorismo de Estado, a tortura, o genocídio, o totalitarismo, os campos de concentração. Para ficarmos apenas com o primeiro desses crimes, é importante que nos demos conta de que há pouco mais de um século ainda convivíamos, no Brasil, com a vergonha da escravidão como uma instituição legalmente, e, para muitos, moralmente aceita.

Sim, estamos – a sociedade como um todo – fazendo grandes progressos, apesar das guerras, dos crimes ambientais, da violência urbana, das iniqüidades sociais que persistem. Nas sociedades desenvolvidas, pelo menos, já não se admite que pais castiguem fisicamente seus filhos, que maridos agridam suas esposas, ou que pessoas sejam discriminadas pela cor de sua pele. Estes fatos ainda ocorrem, mas já não são socialmente sancionados pela maioria. Não é pouca coisa.

E, tão importante quanto isso, os eventos recentes mostram que a solidariedade permanece sendo um valor básico da sociedade, cultivado por grandes parcelas da população. O ser humano, por enquanto, parece ainda ter salvação!


ILUSTRAÇOES
A Mulher que Botou O Diabo na Garrafa
José Francisco Borges
Os Retirantes
José Miguel da Silva
Disponíveis em Indigo Arts



25 janeiro 2009

ó fortuna



Ó Fortuna,
és como a Lua
mutável,
sempre aumentas
e diminuis;
a detestável vida
ora escurece
e ora clareia
por brincadeira a mente;
miséria,
poder,
ela os funde como gelo.

Primeira estrofe de
Fortuna, Imperatriz do Mundo.
Carmina Burana
de Carl Orff


23 janeiro 2009

ter ou não ser


O termo “narcisismo” tem ultrapassado amplamente as fronteiras do discurso técnico, psicológico ou psicanalítico. Todos sabem de sua origem no mito de Narciso, a figura mitológica que, de tão fascinado por sua própria imagem refletida na água, morre de paixão e inanição. Daí a entender as sutilezas do termo, vai uma distância, até porque, mesmo no campo profissional, ele remete a uma grande variedade de significados, a depender do contexto e das escolas.

O termo foi proposto por Freud para designar uma fase do desenvolvimento do bebê em que o amor recai sobre si-mesmo, como no mito grego. Assim, um adulto narcisista seria necessariamente uma pessoa imatura, que não cresceu do ponto de vista emocional o suficiente para desenvolver a capacidade de amar outra pessoa. Entretanto, alguns de seus seguidores ampliaram e modificaram essa noção. Passou-se a pensar o narcisismo também em termos de uma dimensão normal do ser humano. O amor próprio como uma necessidade e uma condição primordial para a felicidade. É a partir daí que se fala em “riscos ao narcisismo”, para se referir aos ataques à segurança ontológica, que geram a depreciação da auto-estima e a insatisfação com a vida.

Nos tempos de Freud, o grande desafio das pessoas era lidar com a repressão, com os conflitos internos entre os impulsos, os desejos e as fantasias, e aquilo que se podia sentir, pensar ou fazer (principalmente quando o assunto era sexo). Estamos falando de uma sociedade do período vitoriano, extremamente moralista e castradora. Hoje, quando podemos quase tudo, a história é diferente. O nosso maior desafio está em conciliar as nossas expectativas de reconhecimento (geralmente vinculadas à aquisição de bens e de status) ao que conseguimos efetivamente ter.

Numa sociedade de consumo de massas, na qual cada vez mais a auto-estima está alicerçada nos símbolos externos de status e de poder, a frustração das expectativas torna-se uma fonte permanente de insatisfação. Valores morais e abstratos, como a generosidade, a simpatia, a amizade e o conhecimento, deixam de ser fontes de reconhecimento social e de auto-valorização.

É esse o sentido que o termo tem no trabalho de importante pensador da cultura de massas em nosso tempo, Cristopher Lasch, autor do livro O mínimo eu. Esse autor usa a expressão “retração narcísica” para caracterizar a busca da sobrevivência psíquica a partir de uma posição fundamentalmente individualista. O perfil do ser narcisista desenhado por Lasch é aquele de um indivíduo cético e cínico, oprimido pela cultura do individualismo competitivo e guiado por uma lógica de auto-preservação. Ganancioso, no sentido de que seus desejos não têm limites, exige imediata gratificação e vive em estado de um desejo perpetuamente insatisfeito.

É esse narcisismo patológico que torna as pessoas mais dependentes tanto da aquisição de bens, como as roupas de grife, os carros portentosos e os celulares de última geração. É esse narcismo que não se satisfaz com o que se tem, o que é vivenciado na forma de inveja e ingratidão, e que leva à busca sempre frustrada de um ideal de beleza e juventude eternas. E é também o que leva as pessoas a buscarem a todo custo a exposição na mídia: nas colunas sociais, nos reality shows, e daí por diante.

Entre as manifestações mais dramáticas e graves do narcismo cultural – não aquele normal e saudável que todos devemos nutrir, a partir da construção de valores interiores – estão as depressões e os chamados “transtornos alimentares”, quadros cada vez mais freqüentes nos consultórios de psicólogos e psiquiatras. Entre estes estão a bulimia e a anorexia nervosa. Em documentário de tevê, assisti a adolescentes de Beverly Hills, na Califórnia, relatarem que os banheiros da High School têm cheiro de vômito, tal a quantidade de garotas portadoras de bulimia.

Na sociedade de consumo, se o indivíduo não tem o tênis de marca, o último modelo de carro, e os seus quinze minutos de fama, então “não pode” ser feliz, porque a felicidade depende mais desses símbolos culturais de poder do que dos valores internos que possam dar um sentido sólido de amor-próprio.

Será que ainda veremos a cura dessa doença?


22 janeiro 2009

from washington to obama



Clique na famosa bandeira concebida por Jasper Johns, em 1955, e que se tornou um dos ícones da pop art. O link leva a uma montagem com os retratos de todos os presidentes dos EUA. Para completar, a trilha é uma remixagem de Rapsody in Blue, de Gershwuin, com várias músicas folclóricas e marchas marciais norte-americanas. Faz jus ao país!


10 dezembro 2008

martha argerich


Reproduzo o post publicado no Blog do Miguel sobre a linda e competente pianista argentina.


MARTHA ARGERICH TOCA CHOPIN "POLONAISE N°6 L'HEROIQUE"

A famosa pianista argentina Martha Argerich desbancou o pianista brasileiro Arthur Moreira Lima no “Chopin Competition” em 1965 (Warsaw), deixando para ele o segundo lugar na competição. O vídeo abaixo mostra sua performance vencedora. O sorriso que ela dá no mínuto 5:34 do vídeo mostra o porque de ter cativado os árbitros. Como que um coroamento arrebatador de um esforço comedido e de uma construção lenta e talentosa, o sorriso fez muitos caírem de amor pela sua simpatia, como se verifica facilmente nos comentários do vídeo.


Clique aqui para conferir a sua performance.

07 dezembro 2008

fiat lux



O título e a respectiva caricatura são de Baptistão (link ao lado).
Que ele seja menos ruim que o Bush, e já estaremos no lucro.