29 julho 2011

dilemas da identidade


Na medida em que a tradição perde a força como fonte de conhecimentos, de modelos e regras, aumenta a reflexividade, já que tudo precisa ser pensado, ponderado e avaliado antes que as escolhas sejam feitas. Assim, as pessoas tendem a se sentir cada vez mais inadequadas, ao não saberem se as opções que fazem são “certas”, “saudáveis” ou “politicamente corretas”. O mais grave de tudo é que as dúvidas estendem-se inclusive sobre a representação que cada um constrói sobre si mesmo ao longo da vida, ameaçando a sua segurança ontológica: a segurança de sabermos quem somos, o que pensamos, como agimos, e assim por diante.

Trecho de Os outros que somos: dilemas da identidade contemporânea. Lançamento em breve pela Editora Unisul.


02 julho 2011

dilemas (2)


É falsa a crença de que o ser humano é por natureza solitário e egoísta, que encontra defensores ilustres, entre os quais Shopenhauer, que afirmam que o homem só busca o outro, ou só nutre uma amizade, por puro interesse egoísta. Tal concepção leva à conclusão de que viver em sociedade, e ter a necessidade de reconhecimento e de afeto de outros, é um distanciamento da verdadeira natureza humana. O ser humano deveria, nessa perspectiva, ser capaz de viver de maneira auto-suficiente e autárquica, e não depender da opinião alheia para a manutenção de sua auto-estima.

Ao contrário, como bem lembra Todorov em seu A vida em comum, não existe tal passagem da vida solitária à sociabilidade, pois esta precede o indivíduo. Os seres humanos “não vivem em sociedade por interesse ou por virtude ou por força de qualquer outra razão; assim o fazem, pois não há para eles qualquer outra forma de existência possível".


Trecho do meu livro Os outros que somos: dilemas da identidade contemporânea, com lançamento previsto para agosto, pela Editora Unisul.


27 junho 2011

dilemas (1)


Toda pessoa tem necessidade de reconhecer a si mesma, e de ser reconhecida, como uma pessoa única, entre tantas outras. Por outro lado, há a necessidade de pertencimento: a sensação de que não se está só, de que se faz parte de uma família, de uma comunidade, uma religião, uma cultura ou uma nação. A construção da identidade envolve, portanto, estas duas forças contraditórias e complementares: a vontade de ser único e a vontade de fazer parte.

Trecho do meu livro Os outros que somos: dilemas da identidade contemporânea, com lançamento previsto para muito em breve.


30 maio 2011

millennials



Global Youth or MILLENNIALS, the new generation.

Genial vídeo legendado que faz uma breve história da juventude na era da Internet, o que significa ser jovem em tempos de "consciência coletiva", e os desafios de ser jovem na sociedade contemporânea.

19 maio 2011

waves


vaga
NO MAR
vago espanto
NO OLHAR


01 maio 2011

a cancer on the planet



Jonathan Franzen é o cara da cena literária americana e (também nisto!) mundial. Sua prosa é tão densa quanto a de Roth, com a vantagem de não ser judaico-centrada. Observador de pássaros (o que a nós, brasileiros, parece uma boiolice, ainda que seja uma atividade levada a sério em outros paralelos) melhor observador ainda é da sociedade americana. Sua análise das neuroses culturais costuma passar pela família, como neste monumental romance, Freedom, que rendeu-lhe muitos elogios e grande publicidade nos EU, no ano passado.
Transcrevo uma passagem já próxima ao final, quando Walter, executivo de uma fundação de proteção ambiental que oculta interesses menos nobres e confessáveis de conglomerados da indústria do carvão, bota a boca no trombone num surto de raiva e cansaço.


Wellcome to the middle class! [...] Now you, too, can help denude every last scrap of native habitat in Asia, Africa, and South America! You, too, can buy six-foot-wide plasma TV screens that consume unbelievable amounts of energy, even when they're not turned on! But that's OK, because that's why we threw you out of your homes in the first place, so we could strip-mine your ancestral hills and feed the coal-fired generators that are the number-one cause of global warming and other excellent things like acid rain. It's a perfect world, insn't it? It's a perfec system, because as long as you've got your six-foot-wide plasma TV, and the electricity to run it, you don't habe to think about any of the ugly consequences.
...
And meanwhile we are adding thirteen million human beings to the population every month! Thirteen million more people to kill each other in competition over finite resources! And wipe out every other living thing along the way! IT IS A PERFECT FUCKING WORLD AS LONG AS YOU DON'T COUNT EVERY OTHER SPECIES IN IT! WE ARE A CANCER ON THE PLANET! A CANCER ON THE PLANET!

17 abril 2011

o espírito do ateísmo



André Comte-Sponville é autor do excelente Pequeno Tratado das Grandes Virtudes, e de um pequeno livro, ilustrado por sua esposa, A Vida Humana, que trata das viscissitudes do ciclo vital (para citar apenas dois de seus inúmeros títulos publicados no Brasil). Este, O Espírito do Ateísmo, prima pela maneira respeitosa como trata o tema, e pela consistência e elegância de sua argumentação. O título já traz embutida uma provocação: como o "espírito" do ateísmo, se este geralmente pressupõe uma visão materialista do mundo? É disto que ele trata na terceira parte do livro "Uma espiritualidade sem Deus?", da qual transcrevo alguns trechos:



Somos seres finitos abertos para o infinito; seres efemeros, abertos para a eternidade; seres relativos, abertos para o absoluto. Essa abertura e o próprio espírito. A metafísica consiste em pensá-la; a espiritualidade em experimentá-la, exercê-la, vivê-la. [...] Ser ateu não é negar a existência do absoluto; é negar que o absoluto seja Deus. ... O conjunto de todas as condições é necessariamente incondicionado, o conjunto de todas as relações é necessariamente absoluto, o conjunto de todos os pontos de vista não é um ponto de vista.

...

É o que podemos chamar de naturalismo, de imanentismo ou de materialismo. A natureza é para mim o todo real (o sobrenatural não existe), e existe independentemente do espírito (que ela produz, que não a produz). [...] Natura, sive omnia: a natureza, isto é, tudo.

...

Que a natureza existe antes do espírito que a pensa, disto estou convencido. é onde o naturalismo, para mim, leva ao materialismo. [...] Ser materialista, no sentido filosófico do termo, é negar a independência ontológica do espírito. Não é negar sua existência. [...] O espírito não é a causa da natureza. É seu resultado mais interessante, mais espetacular, mais promissor.

...

No fundo, é o que Freud, fazendo sua uma expressão de Romain Rolland, chama de "sentimento oceânico". Ele o descreve como "um sentimento de união indissolúvel com o grande Todo e de pertencimento ao universal". [...] Esse sentimento "oceânico" não tem, em si, nada de propriamente religioso. Pelo que dele vivi, tenho até a impressão oposta: quem se sente "em unidade com o Todo" não precisa de outra coisa. Um Deus? Para quê? O universo basta. Uma Igreja? Inútil. O mundo basta. Uma fé? Para quê? A experiência basta.


05 abril 2011

consumismo




Você tem fome de quê?
(clique no link acima)

Minha palestra nos Diálogos Itaú de Sustentabilidade
SP, 31 de março de 2011.


14 novembro 2010

frente & verso


Centre Georges Pompidou, Paris, maio de 1987.

Republicado hoje em homenagem às recém-visitantes de Paris...


12 novembro 2010

o uso inconsciente do dinheiro


minha palestra:
O USO IN-CONSCIENTE DO DINHEIRO
no encontro do
TEDx Vilda Madá na Livraria Cultura
sobre
"O uso consciente do dinheiro"


03 outubro 2010

o genial gilberto freyre

A recente publicação de um livro póstumo de Gilberto Freyre me reconduziu à sua obra prima Casa-Grande e Senzala. Este livro já me causara uma forte e duradoura impressão quando o li a primeira vez, na década de 80, e o recomendo a todos que queiram entender o Brasil, mesmo quem não tenha formação em ciências sociais. Leiam-no, inclusive, pela boa literatura que é. Como uma saga ou um romance histórico.

Casa-Grande é um rico retrato do Brasil colonial. É verdade que, como apontam alguns críticos, ele carrega as cores da realidade nordestina, especialmente do Pernambuco de Freyre. Mas ali estão as características marcantes do organização social dos primeiros três séculos de uma proto-nação, da economia açucareira, da escravidão, das influências culturais dos portugueses, índios e negros; e do que, na visão do sociólogo, marca definitivamente o Brasil, a miscigenação entre esses três grupos populacionais. Uma mistura que ele reconhece como riqueza, como vantagem, e como patrimônio.

Gilberto Freyre desfaz o mito de que fomos colonizados por uma escória formada por degredados, até porque os portugueses não tinham tanta gente para degredar. Foi projeto de Portugal ocupar suas terras e plantar aqui as bases de uma colônia produtiva, e, para isto, teria para cá enviado representantes de sua nobreza.



Algumas passagens, escolhidas quase ao acaso, dão uma pequena amostra da beleza do texto que, nos anos subseqüentes à sua publicação, em 1933, foi traduzido para dezenas de idiomas e acolhido com entusiasmo pela comunidade acadêmica.

A ama negra fez muitas vezes com as palavras o mesmo que com a comida: machucou-as, tirou-lhes as espinhas, os ossos, as durezas, só deixando para a boca do menino branco as sílabas moles. Daí esse português de menino que no norte do Brasil, principalmente, é uma das falas mais doces deste mundo. Sem rr nem ss; as sílabas finais moles; palavras que só faltam desmanchar-se na boca da gente.

Freyre dedicou grande espaço as contribuições dos índios à cultura, passando pela pela religiosidade, pela culinária e pela língua. Quando fala do indígena na formação da família brasileira, e coerentemente com sua própria vida privada, é grande também nesse capítulo a ênfase dada à sexualidade. Freyre afirma, com muita picardia, que “o europeu saltava em terra escorregando em índia nua; os próprios padres da Companhia [de Jesus] precisavam descer com cuidado, senão atolavam o pé em carne”. Além disso, a higiene e a vaidade, o gosto pelos enfeites, teriam sido outras das herenças desse grupo

Da cunhã é que nos veio o melhor da cultura indígena. O asseio pessoal. A higiene do corpo. O milho. O caju. O mingau. O brasileiro de hoje, amante do banho e sempre de pente e espelhinho no bolso, o cabelo brilhante de loção ou de óleo de coco, reflete a influencia de tão remotas avós.

Filho de um importante latinista, como relata em seu livro póstumo De Menino a Homem, Freyre construiu uma sólida formação intelectual. Estudou num colégio americano, aos 14 anos já ensinava latim, e aos 18 segue para os Estados Unidos, onde foi aluno de Franz Boas, um dos fundadores da Antropologia Cultural. A publicação de Casa-Grande e Senzala, quando tinha apenas 33 anos de idade, tornou-o uma verdadeira celebridade. Freyre não usa de nenhuma falsa modéstia quando relembra esses fatos, e o seu sucesso com as mulheres, em suas memórias.

A genialidade de Gilberto Freyre fez dele um pioneiro nos estudos interdisciplinares, e sua obra foi reconhecida pela originalidade com que articula saberes de diferentes áreas, além do estilo refinado, quase literário, com que constrói o seu retrato do Brasil colonial. Se o Brasil quer ter orgulho de si mesmo – ou do que de bom tem, em tempos de governos que nos envergonham diante da comunidade internacional – é bom que mantenha viva a memória deste ilustre brasileiro. (mais)

27 setembro 2010

perdas & ganhos

Estou cansada de tantos acontecimentos em tão pouco tempo; tantos ganhos e tantas perdas... Ainda espero fazer uma vida pra mim... Como? Não sei!
Lúcia, 53 anos, durante sessão de terapia.

Nos capítulos anteriores tratei de vários aspectos da vida no mundo de hoje, na sociedade globalizada, tecnificada, interconectada e em permanente transformação. As múltiplas facetas dessa sociedade tornam impossível qualquer apreciação ou julgamento simplista a respeito dos seus rumos e das consequências futuras. É muito difícil dizer se a sociedade é “melhor” ou “pior” do que as gerações que nos antecederam. Mais difícil ainda dizer se somos melhores ou piores que nossos antepassados. Pelo menos, sem que se deixe claro de que aspectos estamos falando.
Prefiro pensar a sociedade contemporânea em termos de ganhos e perdas, das diferenças em relação ao passado, e dos dilemas que ela nos apresenta. Neste capítulo, faço um resumo da segunda parte do livro, complementando alguns temas e sistematizando os vários desafios à identidade na forma de quatro classes de dilemas fundamentais vividos pelos viajantes dessa grande nave Terra.

1. IDENTIDADE LOCAL versus IDENTIDADE GLOBAL

A globalização traz consigo perdas, corrói a segurança dos saberes tradicionais, e faz com que se dispersem, no caldeirão cultural globalizado, alguns referenciais da identidade cultural local. Mas a globalização também amplia os horizontes existenciais e o conhecimento do mundo. Além disso, ela aproxima pessoas e rompe com preconceitos.
Em seu livro Cultura global e identidade individual, Gordon Mathews mostra como o conceito de cultura vem se tornando cada vez mais problemático, a tal ponto que a noção de “cultura nacional” está sendo colocada em xeque nas ciências sociais. Já não pertencemos mais a uma cultura específica, mas podemos escolher (até onde de fato se trata de uma escolha) aspectos de nossas vidas naquilo que ele chama de “supermercado cultural global”.
Vivendo em Florianópolis, Fernando percebe esse fenômeno e relata um pouco de sua experiência de estar imerso em processos globais de interdependência e de influências mútuas:

Como amante da música, pude conhecer muito mais de música depois da abertura comercial brasileira, em 1990, quando passamos a ter acesso a CD’S importados. Não só isso, na filosofia também. O Budismo foi uma delas. Uma das coisas que me ajudou na época da minha crise foi, através do Yoga, ter descoberto um pouco do Budismo. Não se falava em Budismo aqui no Brasil, até pouco tempo atrás.

Os conflitos entre cultura local e o supermercado cultural global nada mais são, afinal, do que manifestações de outros dilemas históricos da humanidade, que podem ser formulados em termos como tribalismo versus nacionalismo, nacionalismo versus globalismo, e Estado versus mercado. A localidade não se opõe à globalidade, mas se confunde com ela, surge com mais força como um movimento de resistência.
Muitos cientistas sociais apontam o agravamento de fundamentalismos religiosos e as lutas nacionalistas e separatistas como expressão da resistência às influências globalizantes nas esferas econômica, política e cultural. Para o sujeito isolado, o indivíduo, fica o desafio de lidar com o dilema entre ser fiel às suas “raízes” e ser antenado com o mundo; entre ser autêntico e fazer parte de grupos mais amplos, o que já se confunde com o próximo dilema.




2. PERTENCIMENTO versus AUTENTICIDADE

Andar no moda e correr o risco de ser um maria-vai-com-as-outras, ou se vestir com autenticidade e ser visto como um estranho-no-ninho? Ouvir as músicas que a maioria das pessoas curtem, ou gostar de música erudita e não ter com quem trocar idéias a respeito? Assistir ao Big Brother Brasil e participar das conversas de cafezinho, ou se recusar a consumir um produto cultural de qualidade incerta, e ficar por fora do papo?... Os exemplos são virtualmente infinitos, mas o dilema é o mesmo: o quanto queremos, podemos, ou somos impelidos a nos identificar com as tendências dominantes, e o quanto nos mantemos “fiéis a nós mesmos”.
Estamos no campo do dilema entre ser único e fazer parte. Já afirmei, na primeira parte do livro, que toda identidade pessoal é também uma identidade grupal. Aliás, e disto que, em última instância, trata este livro. Meus entrevistados, principalmente os mais jovens e com formação universitária, fizeram-me ver que tais dilemas são sentidos também por eles. Bruno percebe que não há como evitar a globalização e seus efeitos, uma vez que “fazer parte dessa sociedade é inevitável”, e que o fundamental ter crítica a esse respeito e “saber como viver nesta sociedade”. Fernando afirma ser necessário “saber monitorar as influências”. E volto aqui à frase de Ana: “Ninguém pode não ser simplesmente nada”, no sentido de que é preciso fazer parte de algum grupo de identificação.
O livro de Gordon Mathews trata de pensar se existe, ou existiu alguma vez, algo que possa ser chamado de “lar cultural”. Em outras palavras, se existe uma cultura para chamar de sua... Sua investigação revela que, uma vez dentro do supermercado cultural, não há como retornar a esse suposto lar. Quer aqueles que continuam a buscá-lo, quer aqueles que querem dele fugir, o que podem fazer é tentar administrar essa inevitável circunstância, ao mesmo tempo em que lutam para obter reconhecimento e legitimidade para suas opções. Por menos cosmopolita que o indivíduo seja, uma vez tendo acesso aos veículos de informação e aos meios de transporte, estará inevitavelmente em conexão com o mundo.
Uma faceta secundária do dilema pertencimento versus autenticidade é aquele que se estabelece entre segurança e autonomia, e aqui voltamos ao papel da família. Em outras palavras, é o dilema entre o nó e o ninho. Fazemos parte de uma geração que assiste e usufrui a perda do poder normativo tradicional das famílias, enquanto florescem as novas modalidades de relacionamentos emocionais estáveis, a partir de uma perspectiva de maior igualitarismo e respeito mútuo nas relações entre homens e mulheres, e entre pais e filhos.
Mas, será possível permanecermos no ninho sem estarmos atados? Não há dúvidas de que as novas formas de contratos matrimoniais e de sexualidade agregam liberdade e mobilidade à vida das pessoas. Mas talvez haja um preço a ser pago: um número maior de pessoas solitárias, mais idosos vivendo sozinhos ou em abrigos, e famílias menores e menos agregadas.

3. CONHECIMENTO versus DÚVIDA

Vivemos na era da informação e dos excessos. Se por um lado temos acesso crescente à informação, temos, na mesma medida, mais incertezas. O que os mitos, a religião e a tradição nos ensinavam, e que a família e a escola reforçavam, de pouco nos vale hoje. A cada passo do caminho, temos de pensar para que lado seguir.
As pessoas, especialmente aquelas que vivem nos grandes centros urbanos e que navegam a Internet, estão expostas a uma grande quantidade de modelos comportamentais e culturas alternativas. Com isso, aprende-se mais sobre o que se pode esperar. Trata-se de uma socialização secundária, que se segue à primária, aquela que se dá na convivência da criança com a família e a escola, que ocorre mesmo durante a vida adulta. Kenneth Gergen, em The saturated self, fornece um repertório significativo de aprendizados que um cidadão americano pode ter vivendo em qualquer grande cidade daquele país.

Durante uma hora numa rua de cidade somos informados dos estilos de vestir de negros, brancos, classe alta, classe baixa, e mais. Podemos aprender as maneiras dos executivos japoneses, camelôs, sikhs, Hare Krishnas, ou tocadores de flauta do Chile. Vemos como relações são mantidas entre mães e filhas, executivos, amigos adolescentes, e trabalhadores da construção civil. Uma hora num escritório de negócios pode nos expor aos pontos de vista de um empresário texano de petróleo, dum advogado de Chicago, e dum ativista gay de São Francisco. Comentadores de rádio compartilham idéias sobre boxe, poluição, e abuso infantil. [...] Via televisão, uma miríade de figuras é introduzida em nossos lares, as quais de outra forma jamais entrariam. Milhões de pessoas assistem TV, enquanto convidados de talk-shows – assassinos, estupradores, prisioneiras, abusadores de crianças, membros da KKK [Ku-Klux-Klan], pacientes psiquiátricos, e outros geralmente desacreditados – tentam fazer suas vidas inteligíveis. Há poucas crianças de seis anos de idade que não possam fazer pelo menos uma avaliação rudimentar sobre a vida nas vilas africanas, sobre as preocupações dos pais que se divorciam, ou sobre o problema das drogas nos guetos. A cada hora nosso depósito de conhecimento social se expande em amplitude e sofisticação.

Por outro lado, afirma o mesmo autor, o efeito colateral desse fenômeno é o que ele chama de “expansão da inadequação”, ou seja, um crescente auto-questionamento sobre os próprios parâmetros e crenças. É uma idéia muito próxima ao conceito de reflexividade moderna. Seja qual for o nome empregado, trata-se de uma angústia frente ao universo de possibilidades e de escolhas com que se defronta esse Homo urbanus em sua eterna luta por sobrevivência.
Quando temos a sensação de que tudo vale, sobrevêm a angústia de que nada é seguramente mais válido do que o resto das opções. E isto vale para os cuidados para com o corpo, a educação dos filhos, as práticas amorosas e sexuais, as escolhas morais. Sobre este mesmo tema, vale a pena lembrar os versos da canção “Hermana Duda”, do extraordinário compositor e cantor uruguaio Jorge Drexler, a quem considero um dos grandes intérpretes do nosso tempo na esfera da música popular.

No tengo a quien rezarle pidiendo luz,
Ando tanteando el espacio a ciegas.
No me malinterpreten,
No estoy quejándome.
Soy jardinero de mis dilemas.
Hermana duda,
Pasarán los años,
Cambiarán las modas,
Vendrán otras guerras,
Perderán los mismos
Y ojalá que tu
Sigas teniéndome a tiro.

No momento em que escrevo, na Argentina é aprovada a união civil entre homossexuais, e no Brasil uma lei proíbe que se use qualquer castigo físico nos filhos, mesmo as chamadas “palmadas pedagógicas”. As leis, como sempre, correm atrás dos costumes. Para o bem ou para o mal, as leis vão refletindo e normatizando as realidades criadas e recriadas incessantemente pela sociedade.
Ana, apesar de sua juventude, é capaz de descrever com muita acuidade a complexidade das mudanças sociais no que diz respeito à educação dos filhos e suas consequências futuras:

Com todas as mudanças boas que vieram, vieram dois lados. Fizeram essa revolução: pais não podem mais bater nos filhos. Está tudo bem, mas uns levaram isso muito bem e outros deixaram as crianças completamente soltas. Mas o ponto aonde eu quero chegar é o seguinte: essas crianças, a gente está cuidando delas agora, mas essa evolução tem dois lados: tem a parte muito boa, e para onde é que a gente vai, na parte ruim, sabe?!

No vácuo gerado pela dúvida surgem os especialistas, os consultores, a legião de profissionais personal. Saem de cena os padres, entram em cena os terapeutas.

4. INDIVIDUALIDADE versus INDIVIDUALISMO

Podemos ser autênticos sem sermos indiferentes aos outros? Até onde nossas liberdades de escolha, tão ampliadas em relação às gerações que nos precederam, podem se transformar num individualismo desenfreado? Estaria um suposto narcisismo consumista levando ao desmoronamento dos alicerces morais da sociedade? O dilema moral entre individualidade e individualismo abriga uma série de outros componentes, como as possíveis – mas não necessárias – contradições entre amor-próprio e altruísmo, auto-preservação e solidariedade social, oportunismo e honestidade.
Há, de fato, uma percepção muito difundida de que o ser humano contemporâneo sofre de um empobrecimento moral generalizado, e que esse empobrecimento é indissociável das relações econômicas vigentes globalmente, ou seja, do capitalismo. O indivíduo narcisista seria guiado por uma lógica de auto-preservação e de sobrevivência psíquica, sendo pouco confiável e portador de sistemas de valores geralmente corruptíveis. Por exemplo, é assim que Heloísa refere-se ao tema da mercantilização das relações:

Eu fui criada num ambiente em que vigoravam alguns princípios que foram muito importantes para eu desvendar o mundo. Quando eu me vi frente ao mundo, eu vi que muitas coisas eram extremamente diferentes, principalmente no que diz respeito aos valores, principalmente hoje, quando tudo virou mercadoria. Isto me dá muita angústia. De repente eu vejo que as coisas estão muito descartáveis e eu sei a dimensão que isso tem. As pessoas falam e “desfalam”, e eu persigo tanto a coerência... Acho que são conflitos que me geram tanto a sensação que eu sou inadequada, como que talvez o problema esteja lá fora. Acho que esse mundo no qual a gente vive está doente. Mas acho que a responsabilidade também é minha. Enfim, acho que o problema é de ambos, do mundo e meu.

Heloísa tem razão em suas preocupações, enquanto, felizmente, ela própria é uma evidência de que ainda há quem se preocupe, quem se responsabilize, e quem acredite que pode fazer uma diferença. E isto vale para a mercantilização e a competição, tanto quanto para o cuidado com o planeta, o respeito para com a diversidade humana, e a construção de relacionamentos mais honestos.

Referências
Bauman, Z (1999) Globalização: as consequencias humanas. Rio de Janeiro: Zahar.
Gergen, KJ (1991) The saturated self. New York: Basic Books.
Giddens, A (2002) Modernidade e identidade. Rio de Janeiro: Zahar
Hall, S (2000) A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A.
Mathews, G (2002) Cultura global e identidade individual. Bauru: EDUSC.

[Capítulo inédito de Os outros que somos]

21 setembro 2010

drogas para todos os gostos


Existe na sociedade contemporânea um padrão “aditivo”, ou seja, que induz à dependência? Pode-se falar em dependência a outras “drogas” que não as químicas, como jogo, comida e sexo, nos mesmos termos em que pensamos as dependências químicas? A comercialização de quais drogas deve ser criminalizada, e de quais deve ser liberada? E o consumo? Qual o peso relativo dos fatores sociais e dos individuais nas dependências? Existe uma relação entre transtornos narcísicos e o uso abusivo de drogas? Como se articulam os quadros de abuso de substâncias e os demais transtornos mentais?
O problema das drogas coloca a sociedade diante de muitas questões, a maior parte delas sem respostas definitivas. Em seu livro Drogas, por que as pessoas usam?, Francisco Baptista não apenas responde a algumas delas como traça um amplo painel sobre as drogas e seu consumo no Brasil. O autor não faz distinção entre as substâncias psicoativas lícitas ou ilícitas, desde que sejam capazes de produzir dependência e causar danos significativos à saúde. Assim, inclui entre as drogas discutidas a cafeína, o tabaco, o álcool, os tranqüilizantes e os remédios psicoestimulantes, usados de maneira indiscriminada no Brasil, principalmente como inibidores de apetite.
O abuso de drogas não pode ser explicado através de fórmulas esquemáticas ou causalidades lineares. Não há culpados isolados nem causas únicas. Como tudo que se passa no campo da conduta humana, existem múltiplos fatores envolvidos. No entanto, não se pode fechar os olhos para o fato de que a sociedade contemporânea vem se caracterizando por níveis inéditos de produção, venda e consumo de substâncias psicoativas, e que as pessoas, principalmente os jovens, lançam-se numa corrida desenfreada em busca de novas sensações, de prazeres imediatos, de estados alterados de mente, como numa frenética fuga da realidade.
O narcisismo cultural da contemporaneidade está na base de uma mentalidade consumista, de uma insatisfação permanente, e de um vazio existencial que busca alívio no consumo de substâncias que, num primeiro momento, podem trazer sensação de prazer, mas que cobram um alto e crescente preço pela manutenção deste mesmo prazer. Com o tempo, pouco ou nada dele resta, senão a necessidade compulsiva de aliviar a falta da própria droga. Entre aqueles que buscam ajuda psiquiátrica e psicoterápica, não é raro observar casos de uso e abuso de drogas como uma tentativa desesperada de preencher o vazio existencial, aliviar a insegurança ontológica, ou amenizar sintomas de outros transtornos mentais associados.
Os sintomas ansiosos que levaram Fernando a me procurar inicialmente estavam associados a um uso crescente de maconha. Ele buscava alívio para suas angústias na maconha, que, por sua vez, acabou por desencadear várias crises de ansiedade. Na medida em que se tratou, com remédios e com terapia, diminui significativamente o consumo, tendo passado longos períodos em abstinência.
Outro paciente, um jovem de 19 anos que apresentava problemas de conduta e uso de maconha, cocaína e ecstasy, quando iniciou o tratamento revelou vários sintomas sugestivos de psicose. Ele vinha usando essas drogas desde há anos, e tinha uma história familiar importante de pessoas com esquizofrenia e transtorno bipolar de humor. Já existem muitas evidências científicas de que a exposição precoce às drogas, mesmo que exclusivamente a maconha, aumenta em praticamente dez vezes o risco de desenvolver psicoses. Felizmente, este jovem tem conseguido manter-se afastado das drogas, ciente de que disto depende sua saúde mental.



Há hoje uma larga produção artística, principalmente nas artes cênicas, sobre este tema. Poucos filmes, entretanto, impressionaram-me tanto quanto “Réquiem para um Sonho”, do diretor novaiorquino Darren Aronofsky. São histórias paralelas de quatro personagens. Enquanto um jovem, e sua namorada, vão se enredando nas teias da dependência à heroína, sua mãe, abandonada em casa, torna-se dependente de substâncias prescritas por médicos para emagrecer. Durante o dia toma anfetaminas e à noite tranqüilizantes, para dormir. Entre uns e outros, consome de forma igualmente compulsiva os programas populares da TV americana, até ver-se dentro deles, conduzida por delírios e alucinações resultantes do abuso das substâncias. No filme evidencia o problema da dependência a substâncias lícitas, como os remédios, e a outras formas de anestesiamento mental, como pode ser a televisão.
O Brasil, segundo noticiado recentemente, já é um dos países do mundo onde mais se consomem os tranqüilizantes, prescritos muitas vezes de forma irresponsável pelos próprios médicos. O medicamento clonazepam, mais conhecido pelo nome comercial Rivotril®, já é o segundo remédio mais vendido nas farmácias do Brasil. É uma situação grave, levando-se em conta que só pode ser comercializado mediante receita médica. Este é um potente tranqüilizante que, quando usado corretamente, pode ser um valioso instrumento no tratamento de transtornos psiquiátricos. Entretanto, sua prescrição continuada e indiscriminada pode trazer efeitos indesejáveis a curto e longo prazos, entre os quais uma importante dependência química.
Vivemos numa sociedade que é indutora de dependências de toda natureza, que incluem o jogo, os videogames, a Internet, a televisão, passando pelo sexo e pela comida, até uma gama enorme de substâncias que atuam no cérebro. A mídia exerce um papel importante nesse problema, possivelmente muito mais como indutora do uso do que como veículo de educação e prevenção. Ainda não existem estudos definitivos quanto à eficácia das campanhas contra as drogas. E há pelo menos um estudo mostrando que as leis que restringem os locais onde se pode fumar são mais eficazes entre os adolescentes do que aquelas fotos horríveis estampadas nos maços de cigarro.
Ainda assim, não se pode negar de que o conjunto de ações, que abarcam os campos da legislação, tributação, educação e repressão, têm contribuído decisivamente para um decréscimo do consumo de cigarros no Brasil. Uma pesquisa recente do INCA (Instituto Nacional do Câncer) mostrou que, em 1989, 33% dos brasileiros maiores de 18 anos fumavam. Hoje essa proporção é de 18%, tendo ocorrido uma queda de 45%.
Enquanto não existem divergências sobre a necessidade de severo combate ao tráfico de drogas, o mesmo não se pode dizer quanto à maneira de lidar com o consumo. Francisco Baptista é enfático ao criticar a criminalização do consumo, atitude que em sua opinião só reforça a crença de que o usuário é malandro, vagabundo, ou pessoa sem caráter. Esta perspectiva na maioria das vezes só acarreta danos ao próprio usuário, além de significar uma restrição à liberdade individual. O tema da descriminação do consumo, de fato, é bastante sensível e polêmico. As experiências de outros países têm mostrado resultados contraditórios e inconclusivos.
A atual epidemia de crack, que tem ganhado – ainda que tardiamente – algum espaço nos noticiários, impõe a busca de soluções urgentes. Tem-se assistido inclusive em telejornais o desespero de famílias em busca de ajuda para jovens seriamente afetados pelo abuso dessa substância destrutiva. A sociedade organizada e o poder público precisam oferecer respostas urgentes ao problema. O governo já estaria dando um passo importante se destinasse mais verbas para o setor da saúde mental, que sofre de muitas deficiências nesta e em outras áreas. São necessários programas específicos de tratamento no Sistema Único de Saúde, a criação de clínicas especializadas e a ampliação no número de leitos psiquiátricos em geral, e para o tratamento dos dependentes químicos.

Ilustração: cena de Réquiem para um sonho.

05 setembro 2010

sacanagens de gilberto freyre


Trechos do livro recém-publicado de Gilberto Freyre, De menino a homem: de mais de trinta e de quarenta, de sessenta e mais anos. Livro de memórias escrito na forma de um diário. O velho Freyre mostra aqui a mesma picardia que escandalizou os mais puristas em seus relatos das sacanagens que rolavam entre a casa-grande e a senzala. (mais)

Longe de ser um Vieira no meu domínio sobre a língua portuguesa abrasileirada, quando, cada noite, converso com Deus ou com Cristo ou com Maria, como se conversasse com amigos íntimos, as palavras que uso são as mais tropicais, as mais telúricas, as mais ecologicamente brasileiras. Não que me repugne o latim, de vogais as mais doces de Igreja e que aprendi com Meu Pai. [...]
Quando, conversando com Deus, abordo assuntos sexuais, que palavras uso para designar fatos dessa espécie? Só as eruditas? Só as elegantes? Só as cerimoniosas?
Devo dizer que não. Por vezes decido que Deus prefere que, como íntimo, seu amigo, seu confidente, os termos relativos a coisas de sexo sejam os cotidianos e até, dentre os cotidianos, os mais crus. Caralho, por exemplo. Não há sinônimo da palavra "caralho" que diga o que diz, pura e cruamente, "caralho".

04 setembro 2010

a vida é atroz

A vida é atroz, nós o sabemos. Mas precisamente porque espero pouca coisa da condição humana, os períodos de felicidade, os progressos parciais, os esforços para recomeçar e para continuar parecem-me tão prodigiosos que chegam a compensar a massa imensa de males, fracassos, incúria e erros. As catástrofes e as ruínas virão; a desordem triunfará; de tempos em tempos, no entanto, a ordem voltará a reinar. A paz instalar-se-á de novo entre dois períodos de guerra; as palavras liberdade, humanidade e justiça recuperarão aqui e ali o sentido que temos tentado dar-lhes.
Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano.


01 agosto 2010

espaçonave Terra


No mundo contemporâneo, as ameaças ao indivíduo e à espécie, à integridade pessoal e à sobrevivência da humanidade, confundem-se em vários níveis sobrepostos. Estamos sujeitos a ameaças que passam pelos conflitos bélicos e pelo terrorismo internacional, ganham maior concretude na criminalidade urbana, e refletem-se na violência do trânsito e na violência doméstica, para daí perpetuarem-se num eterno ciclo. Os efeitos desagregadores do capitalismo flexível, em especial a predominância do binômio mercantilização-competitividade, estão fortemente presentes na vida social.

Esta é também uma “sociedade de risco”, como afirmam alguns sociólogos, especialmente no que se refere à forma como vivenciamos os riscos à saúde e ao meio ambiente. E já está abalada a crença na capacidade da ciência e da tecnologia propiciarem soluções para todos os problemas da vida, assim como a certeza de que o homem pode dominar e aproveitar racionalmente os recursos da natureza.

Para nós, brasileiros, a inflação, a corrupção, a falta de acesso à saúde e à educação, a insegurança no emprego e a violência urbana são mais perceptíveis cotidianamente do que outros riscos globais. Mas, nas economias mais sólidas e influentes, o período de “guerra fria” foi particularmente tenso, e representou um perigo muito real de uma ecatombe nuclear que poderia nos levar ao auto-extermínio, o que contribuiu para o surgimento uma consciência pacifista universal que muitas vezes desconsidera as contingências históricas e o papel civilizador de algumas guerras.

Quanto às ameaças ecológicas ao planeta e à sobrevivência da espécie humana (para não falarmos de tantas outras espécies em risco de extinção), difunde-se rapidamente o conhecimento de que estamos todos “no mesmo barco”; e de que tais ameaças têm origens sistêmicas e globais. A consciência ecológica vem acompanhada de profundas mudanças de mentalidade e de hábitos. Há duas gerações, caçar passarinhos era uma das modalidades mais comuns de brincadeira infantil. Hoje, são as crianças as primeiras a se rebelarem contra qualquer forma de agressão à fauna silvestre. As mudanças estendem-se a um grande espectro de comportamentos cotidianos, que vão desde não jogar lixo na rua até a condenação e restrição do hábito de fumar.

A criação de uma rede mundial de telecomunicações que transforma o planeta numa “aldeia global”; e as relações de interdependência econômica e ambiental, são acompanhadas igualmente de uma globalização da consciência ecológica e pacifista. Sentimo-nos como tripulantes da “espaçonave Terra”, de tal modo que qualquer coisa que se faça em seu interior afetará a todos os passageiros...

Sim, é verdade que existem fortes tendências ao incremento da competitividade e do narcisismo cultural, que impulsionam as pessoas a buscarem o interesse próprio a todo custo, numa espécie de “salve-se quem puder” ou “cada um por si e Deus por todos”. Mas, como tudo o mais na sociedade, há forças que agem em sentido contrário a estas tendências. As ações de defesa à ecologia mobilizando pessoas ao redor do globo são fundamentalmente de natureza solidária e altruística; o florescimento de uma cultura do voluntariado, que leva pessoas desinteressadas a se engajarem em atividades de apoio a quem mais necessita; uma crescente consciência de cidadania acompanhada de maior responsabilidade pela participação nos espaços de decisão coletiva; e maior respeito às diversidades inerentes à condição humana.

A psicologia evolucionária, ou darwinista, sugere que um dos atributos mais importantes para a sobrevivência de nossa espécie é o fato de sermos fundamentalmente cooperativos. Ou seja, se tivesse predominado na evolução as forças egoístas sobre aquelas da solidariedade e da cooperação, a espécie humana não teria sobrevivido. Assim, amor, piedade, generosidade, remorso, afeição amistosa e confiança duradoura, por exemplo, são partes de nossa herança genética (tanto ou mais quanto os sentimentos hostis). Além disso, os estudos de psicologia têm revelado o que sabemos intuitivamente: que ajudar o próximo pode fazer tão ou mais bem a quem o faz do que a quem recebe. Isto talvez seja uma expressão da herança evolutiva que apenas mencionei. A solidariedade – embora errática e muitas vezes cega ao que não é transformado em tele-dramaturgia – ainda assim se manifesta fortemente, em todas as partes do mundo, diante das grandes catástrofes climáticas e das guerras.

A cultura e os esportes são veículos poderosos de encontro e de desenvolvimento do espírito de solidariedade e do sentimento de fraternidade universal. Eventos como as Olimpíadas e a Copa do Mundo rompem barreiras políticas, culturais e econômicas, e contribuem decisivamente para a paz. O mesmo pode-se dizer sobre as manifestações culturais.

Um exemplo significativo de cultura globalizada me foi dado através de um típico produto da sociedade contemporânea: um dvd. Trata-se de “Yo-Yo Ma Inspired by Bach – Cello Suítes N° 5 & 6”, uma produção internacional em que o violoncelista interpreta suítes de Bach em associação com outros formas de arte. Neste caso, lê-se o seguinte na contracapa do dvd: "Mestre do Kabuki, o ator Tamasaburo Bando embarca numa jornada para descobrir, através da dança tradicional japonesa, a universalidade e emoção da Quinta Suíte de Bach. O resultado é a reveladora, intercultural e transoceânica colaboração com Yo-Yo Ma, sensivelmente documentada pelo diretor Niv Fichman". O interessante disso é que Bach era alemão, Tamasaburo Bando é japonês, Yo-Yo Ma nasceu na França, e é filho de pais chineses, e o diretor Niv Fischman é americano*.



Mais recentemente, ganhou visibilidade um projeto de união entre os povos através da música, que deu origem ao um dvd denominado “Peace through music”, no qual músicos de todas as partes do planeta são conectados tecnologicamente para executarem conjuntamente canções igualmente provenientes de diferentes berços culturais.

Foi a civilização ocidental que inventou os direitos humanos e pregou – a partir do Iluminismo – a necessidade de autonomia individual e de liberdade, a capacidade de pensar por si mesmo recorrendo à razão, e a aspiração ao progresso. Não nos esqueçamos, entretanto, que apesar da crença na “racionalidade moderna”, a humanidade deu abrigo, até muito recentemente, a comportamentos auto-destrutivos e bastante primitivos: o racismo, a escravidão, a desigualdade entre os sexos, a discriminação das minorias, o terrorismo de Estado, a tortura, o genocídio, o totalitarismo, os campos de concentração. Para ficarmos apenas com o primeiro desses crimes, é importante que nos demos conta de que há pouco mais de um século ainda convivíamos, no Brasil, com a vergonha da escravidão como uma instituição legalmente e, para muitos, moralmente aceita. Quase todos eles persistem, aqui e ali, dependendo do desenvolvimento da sociedade civil e dos organismos oficiais. Mas já não são tolerados e alavancados por populações inteiras, como ocorreu com o Holocausto, em pleno século xx, numa sociedade européia econômica e culturalmente desenvolvida.

Sim, estamos – a sociedade como um todo – fazendo grandes progressos, apesar das guerras, dos crimes ambientais, da violência urbana, das iniqüidades sociais que persistem. Nas sociedades desenvolvidas, pelo menos, já não se admite que pais castiguem fisicamente seus filhos, que maridos agridam suas esposas, ou que pessoas sejam discriminadas pela cor de sua pele. Não é pouca coisa.


* Assista a um segmento do vídeo aqui
[Capítulo original de Os outros que somos]


24 julho 2010

transtornos alimentares


Você tem fome de quê? Esta é a pergunta que não quer calar na música “Comida”, dos Titãs. A letra discute o lugar que a comida pode tomar na vida das pessoas e afirma que o sustento material não é suficiente para ser feliz: “A gente não quer só comer, a gente quer comer e quer fazer amor. A gente não quer só comer, a gente quer prazer pra aliviar a dor. A gente não quer só dinheiro, a gente quer dinheiro e felicidade”.
Num mundo de excesso de oferta de bens adquiríveis, inclusive alimentos, necessidades emocionais podem manifestar-se simbolicamente através dos alimentos e dos hábitos alimentares. Não é para menos que os chamados transtornos alimentares estão entre as mais características patologias do narcisismo, uma vez que estão intimamente associados à imagem corporal e a problemas de auto-estima. Entre estes estão a anorexia nervosa e a bulimia, que são importantes para nós porque ocorrem especialmente na adolescência. Embora a obesidade não seja considerada pelas classificações oficiais um problema psiquiátrico, temos razões para incluí-la neste capítulo pelos aspectos emocionais relacionados a esta condição que já se transformou num grave problema de saúde pública.

ANOREXIA NERVOSA

A anorexia nervosa é um distúrbio grave, que pode levar à morte. Um caso que se tornou público, no Brasil foi o da modelo Ana Carolina Macan, que faleceu em 2006 aos 21 anos de idade, então com 1,74 m de altura e 40 quilos de peso. Sua morte foi devida à inanição e a complicações renais dela decorrentes, e desencadeou uma grande discussão sobre a falta de diagnóstico e tratamento adequados e sobre as condições de trabalho na indústria da moda. De fato, esta condição afeta com maior frequência pessoas para quem o corpo e a aparência têm grande importância, como modelos, atletas e bailarinas.
Este é um transtorno psiquiátrico típico da adolescência, que acomete principalmente o sexo feminino (cerca de 90% dos casos), ou rapazes homossexuais. Suas principais características são uma perda de peso importante, decorrente de restrição alimentar auto-imposta, com repercussões para a saúde global (distúrbios metabólicos, interrupção da menstruação) e com distorção da imagem corporal (Abreu e cols., 2006).
A distorção da própria imagem caracteriza uma dismorfofobia, palavra que vem do grego: dis (alteração) morfo (forma) fobia (medo). Esta condição, que pode aparecer em outros quadros psiquiátricos, é importante para o diagnóstico da anorexia nervosa. Por mais magra que esteja, a garota enxerga-se ainda gorda, ou vê depósitos indesejáveis de gordura em partes do corpo coma barriga e culote, o que a leva a persistir na dieta. O intenso medo de ganhar peso geralmente torna-se o centro da sua vida, e há uma grave negação dos riscos à saúde e dos problemas familiares decorrentes da sua conduta.
As causas do transtorno são complexas e multifatoriais. Além dos aspectos culturais e profissionais já assinalados, existem fatores familiares e psicológicos. Várias teorias apontam a anorexia nervosa como uma expressão do desejo inconsciente de manter um controle mágico sobre o próprio corpo, com o objetivo de estabelecer uma fronteira entre si-mesmo e os outros. É algo como se a paciente pensasse, inconscientemente, “vocês podem fazer qualquer coisa, mas não podem me obrigar a comer. Pelo menos sobre o meu corpo eu mesma que mando!”.
Na história de muitos dos jovens que apresentam o problema aparecem também os abusos psicológicos, físicos e sexuais. Principalmente neste último caso, a anorexia pode representar uma tentativa de conter o crescimento, o que inclui o não desenvolvimento das características sexuais (as formas arredondadas, os seios, os pelos pubianos, etc.). De certa forma, as pacientes encenam no próprio corpo – como uma denúncia silenciosa – a agressão a que foram submetidas, ao mesmo tempo em que revidam o sofrimento vivenciado. Mesmo em pacientes que já passaram pela puberdade, o quadro pode levar à interrupção da menstruação, e a perda de gordura faz com que desapareçam os atrativos físicos associados à sensualidade.
O tratamento deve envolver uma equipe multidisciplinar. Não existem medicamentos específicos para esta condição, sendo utilizados geralmente antidepressivos e outros psicotrópicos – como os antipsicóticos – em função das características de cada caso e das patologias associadas. As terapias individuais, grupais e familiares também fazem parte dos recursos terapêuticos empregados. Em muitos casos, pode ser necessária a internação hospitalar para iniciar medidas terapêuticas mais drásticas e manter a paciente viva.
Há uma indicação formal para internação quando o Índice de Massa Corporal (IMC) estiver inferior a 16,5. Este é um indicador de peso obtido através do seguinte cálculo: peso/altura2. O IMC normal localiza-se entre 18,5 e 25. A modelo Ana Carolina, quando faleceu, estava com um IMC de 13,5!


Um caso clínico nos ajudará a entender melhor algumas dinâmicas familiares que podem estar na base dessa complexa condição. Este é um exemplo de quando um membro da família funciona como porta-voz do grupo, e seu sintoma denuncia um problema que inclui o sistema familiar como um todo.

Os pais de Clara, de 17 anos, recorreram a mim com queixas de que a filha vinha emagrecendo de forma perigosa e insistia em se considerar com excesso de peso, apesar de todas as evidencias objetivas em contrário. Como já haviam tentado sem sucesso uma terapia individual, e a jovem apresentava grande resistência inicial ao tratamento, optei por atender o grupo familiar, composto pelos pais na faixa dos 50 anos e por duas filhas: Clara e a irmã Joana, de 22 anos. Ao dizer “venham todos” eu estava comunicando à paciente meu reconhecimento de que ela não era a “culpada” ou a “errada”, como vinha sendo tratada, e tentei estabelecer com ela uma aliança terapêutica.
Já nas primeiras sessões vieram à tona graves problemas conjugais, que incluíam o abuso de álcool pelo pai e agressões físicas mútuas, e uma nítida coalizão entre as mulheres contra o único homem da casa. A mãe mantinha um vínculo de confidência e de dependência emocional com as filhas, principalmente com Clara.
Uma mãe que se apóia na filha está invertendo os papéis e representa geralmente um fardo que uma menina não pode suportar. Este tema foi trabalhado, conotando-se a doença da filha como uma denúncia dos problemas familiares e, ao mesmo tempo, como uma tentativa inconsciente de deter o crescimento. Desta maneira ela poderia permanecer como um escudo entre a mãe e o pai, uma vez que a irmã mais velha já havia saído de casa para estudar fora. Aos poucos Clara foi abandonando o sintoma e, com sua melhora, o tratamento foi centrado no casal. Nessa fase, tratou-se da aposentadoria recente do pai e seu sentimento de confusão frente à nova fase de vida. Revelaram-se, também, problemas de ordem sexual e outros sintomas depressivos e ansiosos de ambos os pais.
Ao longo do tempo ficou evidente a necessidade de tratamento psiquiátrico do pai. Ele foi encaminhado para acompanhamento e, até onde tive notícias, estava medicado e ainda tentando controlar suas crises de agressividade, embora já então em abstinência alcóolica. Apesar dos problemas familiares e das manifestações típicas da adolescência, Clara apresentou melhora completa da anorexia nervosa e encontrava-se bem, tendo sido orientada a seguir em psicoterapia em sua cidade de origem.

A terapia do grupo familiar mostrou que Clara vingava-se dos pais criando um problema que lhes trazia também sofrimento, ao mesmo tempo em que praticamente os conduziu a procurarem ajuda. No momento em que os problemas conjugais passaram a ser tratados, o sintoma de certa forma perdeu sua função. De fato, a família pode ser um contexto de construção da doença, assim como de cura (Soar Filho, 2003).
Entretanto, sempre é bom lembrar que cada paciente requer uma abordagem diferenciada, e que o caso acima não deve ser tomado como um modelo que funcionaria igualmente para todos os pacientes.

BULIMIA NERVOSA

A bulimia nervosa é outro grave problema, embora subestimado e sub-diagnosticado. Neste transtorno, ocorrem ataques de gula – binge-eating – em que a pessoa ingere uma quantidade enorme de comida, após os quais sobrevém uma grande sensação de mal-estar físico e emocional.
No tipo “purgativo” de bulimia, os episódios de comer compulsivo são seguidos de medidas ou manobras para eliminar o excesso de alimentação, sendo a mais comum o vômito auto-induzido, assim como o uso de diuréticos e laxantes. No tipo “não-purgativo” a pessoa tenta perder o que ingeriu praticando atividades físicas em excesso, ou através de jejum. Em geral os períodos de jejum que se seguem aos episódios de binge levam a novos descontroles alimentares, mantendo-se assim um ciclo vicioso.
O termo bulimia é proveniente do grego, e significa literalmente uma fome (limos) de boi (bous). A condição afeta predominantemente pessoas do sexo feminino e jovens, embora não costume ocorrer tão precocemente quanto a anorexia. Ao contrário desta, os portadores geralmente não apresentam grande variação do peso.
Entre as complicações médicas que decorrem do transtorno estão alterações hormonais e metabólicas, aumento das glândulas parótidas e problemas dentários, causados pelos vômitos repetidos. Assim como a anorexia, a bulimia nervosa frequentemente está associada a outros transtornos psiquiátricos, como os transtornos de humor e de personalidade.
Como em outros transtornos mentais, as causas da bulimia são multifatoriais e complexas. Em programa exibido pelo canal de tevê GNT, foram entrevistadas alunas de uma high school de Beverly Hills, uma das regiões do mundo onde o culto ao corpo e à juventude é mais marcante, inclusive pela proximidade a Hollywood. Muitas garotas revelaram que praticavam vômitos auto-induzidos após as refeições, e que os banheiros da escola rescendiam a vômito, tamanho o número de alunas (e alunos) que faziam o mesmo.
O que foi dito sobre o tratamento da anorexia vale também para a bulimia, especialmente quanto à necessidade de uma abordagem multidisciplinar integrada. Além dos antidepressivos, outros medicamentos que controlam a impulsividade podem ser úteis. Nos últimos anos vêm sendo utilizadas com sucesso técnicas de terapia cognitivo-comportamental, como a manutenção de um diário alimentar pelo paciente.

OBESIDADE

No pólo oposto ao da anorexia está a obesidade, que constitui um grande paradoxo da sociedade contemporânea. Ao mesmo tempo em que os modelos de beleza apontam para uma magreza cada vez maior, a sociedade de consumo oferece alimentos em quantidades crescentes. Nos Estados Unidos, o tamanho dos lanches e refrigerantes não para de crescer. Também a qualidade da alimentação mudou muito, e hoje predominam alimentos industrializados, hipercalóricos e com excesso de sal e de gorduras. Essa contradição pode muito bem ser chamada de “paradoxo da magreza”.
Está ocorrendo, hoje, uma verdadeira pandemia de obesidade em todas as sociedades desenvolvidas, e mesmo nas mais pobres, inclusive com um número crescente de crianças e adolescentes afetados. Outro aspecto paradoxal da obesidade é o fato de que os setores da população mais afetados são aqueles com menores níveis sócio-econômico e educacional (Azevedo, 2006).
Enquanto a sociedade induz ao ganho de peso, a cultura exige cada vez mais redução de peso. Como efeito colateral, há uma busca desenfreada por tratamentos cirúrgicos para a redução de peso, como as lipoaspirações e as cirurgias de redução do estômago. A demanda por ajuda para lidar com problemas de sobrepeso aparece também na florescente indústria de produtos light e diet, em publicações especializadas em “boa forma”, na proliferação de academias e personal trainers, assim como nos consultórios de endocrinologistas, nutricionistas, psicólogos e psiquiatras.
Nos últimos anos tenho realizado um grande número de avaliações psiquiátricas como parte dos exames pré-operatórios para cirurgias bariátricas (de emagrecimento), e acompanhado pacientes no pós-operatório. Vejo, com preocupação, crescer o número de adolescentes que buscam este recurso, inicialmente criado como uma solução extrema.


Do ponto de vista clínico, considera-se obesidade quando o IMC está igual ou superior a 30. Nãohá evidências científicas de que a obesidade esteja necessariamente associada a problemas psicológicos ou psiquiátricos. Ainda assim, sabe-se que a ansiedade e a depressão podem ser tanto causa quanto consequência da obesidade.
Estudos com a população geral não encontraram mais problemas psiquiátricos entre obesos do que não obesos. Entretanto, entre aqueles que procuram ajuda especializada, há claramente uma maior prevalência de transtornos psiquiátricos. Numa pesquisa feita com candidatos a cirurgia bariátrica, foram encontradas com mais frequência depressão e ansiedade, e existe relação entre a gravidade da obesidade e uma história de depressão e transtornos alimentares. Quase metade (45%) deste grupo de pacientes apresentou história de algum transtorno do humor (depressão ou transtorno bipolar) ao longo da vida . Estes pacientes são mais propensos igualmente a apresentarem transtornos de ansiedade e de controle de impulsos, como abuso de drogas e outras compulsões, inclusive a compulsão alimentar (Kalarckian e cols, 2007).
A obesidade pode, assim como a anorexia e a bulimia, estar associada a uma história de violência sexual na infância, ou de sexualização excessiva dos vínculos entre a criança e seus pais ou outros adultos e parentes próximos. Não é raro observar-se que uma adolescente obesa tenta esconder, sob a gordura, o corpo sensual que poderia desencadear desejo do outro. De forma semelhante, muitas vezes a fome de alimentos - e a obesidade decorrente - representa uma fome insaciável de amor e atenção.

CORPO E AUTO-ESTIMA

Um registro sinistro da mitificação da beleza e da juventude em nosso meio encontra-se na pesquisa da Universidade de São Paulo, junto a setecentos estudantes da área da saúde de ambos os sexos, de vários estados, com idades entre 17 e 26 anos. Foi perguntado a eles o que pensavam sobre o próprio corpo: três quartos desaprovavam a própria aparência física e se incomodavam com pequenos detalhes, e 80% afirmaram que mudariam características do corpo para melhorar a aparência. Esses resultados não seriam tão graves não fosse o fato de que 90% estavam longe de ser obesos, o peso de 65% deles era considerado normal para idade e altura, e 13% revelaram provocar vômitos e usar outros meios purgativos após comer (Ribeiro & Zorzetto, 2004).
Uma paciente minha, estudante universitária de 25 anos de idade, cujo peso era normal, revelou seu sentimento de inadequação, confirmando os dados da pesquisa mencionada. Ela reconhece, aqui, o poder dos modelos e o impacto destes sobre sua própria percepção corporal:

Eu cresci ouvindo que magérrimo é lindo... Eu acredito nisto, e eu não consigo não pensar assim também. Eu olho pra alguém que não é tão magro, mas é bonito, e eu penso: essa pessoa seria mais bonita se fosse mais magra. É absurdo, mas a minha geração toda pensa assim. Eu mesma perderia mais uns cinco quilos.

Os transtornos alimentares fazem parte de um conjunto de patologias narcísicas, ou seja, da auto-estima. Quando dizemos "narcísicos", em psicanálise, não estamos falando de excesso de amor próprio, no sentido mais popular de narcisismo, mas da busca de amor-próprio. São as manifestações de uma busca desenfreada por admiração, reconhecimento e amor.
A aparência, mais do que nunca, substitui hoje outras qualidades pessoais abstratas, como as virtudes pessoais. A admiração dos atributos físicos tomou o lugar da valorização do conhecimento, da capacidade produtiva, dos vínculos afetivos e da sabedoria. É a busca do olhar do outro, do seu desejo, de sua apreciação e de seu reconhecimento. A fome de amor, desse alimento vital para a manutenção da auto-estima, facilmente corre o risco de se transformar na fome física, ou na sua negação total. Afinal, nós temos fome quê?

Referências

Azevedo, A.P. (2006) Aspectos psicológicos e psiquiátricos da obesidade. Em: C.N. Abreu; F.T. Salzano; F. Vasques e cols. Síndromes psiquiátricas. Diagnóstico e entrevista para profissionais de saúde mental. Porto Alegre: Artmed.
Kalarchian & cols (2007) Psychiatric Disorders Among Bariatric Surgery Candidates: Relationship to Obesity and Functional Health Status. Am J Psychiatry, 164: 328-334.
Ribeiro, M. & Zorzetto, R. (2004) O avesso de Narciso. Pesquisa FAPESP, n. 103, p. 34-9.
Salzano, F.T. & Cordás, T.A. (2006) Transtornos da Alimentação. Em: C.N. Abreu; F.T. Salzano; F. Vasques e cols. Síndromes psiquiátricas. Diagnóstico e entrevista para profissionais de saúde mental. Porto Alegre: Artmed.
Soar Filho, E.J. (2003) O médico e a família do paciente. Em: A. Cataldo Neto; G.J.C. Gauer & N.F. Furtado. Psiquiatria para Estudantes de Medicina. Porto Alegre: EDIPUCRS.