17 abril 2011

o espírito do ateísmo



André Comte-Sponville é autor do excelente Pequeno Tratado das Grandes Virtudes, e de um pequeno livro, ilustrado por sua esposa, A Vida Humana, que trata das viscissitudes do ciclo vital (para citar apenas dois de seus inúmeros títulos publicados no Brasil). Este, O Espírito do Ateísmo, prima pela maneira respeitosa como trata o tema, e pela consistência e elegância de sua argumentação. O título já traz embutida uma provocação: como o "espírito" do ateísmo, se este geralmente pressupõe uma visão materialista do mundo? É disto que ele trata na terceira parte do livro "Uma espiritualidade sem Deus?", da qual transcrevo alguns trechos:



Somos seres finitos abertos para o infinito; seres efemeros, abertos para a eternidade; seres relativos, abertos para o absoluto. Essa abertura e o próprio espírito. A metafísica consiste em pensá-la; a espiritualidade em experimentá-la, exercê-la, vivê-la. [...] Ser ateu não é negar a existência do absoluto; é negar que o absoluto seja Deus. ... O conjunto de todas as condições é necessariamente incondicionado, o conjunto de todas as relações é necessariamente absoluto, o conjunto de todos os pontos de vista não é um ponto de vista.

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É o que podemos chamar de naturalismo, de imanentismo ou de materialismo. A natureza é para mim o todo real (o sobrenatural não existe), e existe independentemente do espírito (que ela produz, que não a produz). [...] Natura, sive omnia: a natureza, isto é, tudo.

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Que a natureza existe antes do espírito que a pensa, disto estou convencido. é onde o naturalismo, para mim, leva ao materialismo. [...] Ser materialista, no sentido filosófico do termo, é negar a independência ontológica do espírito. Não é negar sua existência. [...] O espírito não é a causa da natureza. É seu resultado mais interessante, mais espetacular, mais promissor.

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No fundo, é o que Freud, fazendo sua uma expressão de Romain Rolland, chama de "sentimento oceânico". Ele o descreve como "um sentimento de união indissolúvel com o grande Todo e de pertencimento ao universal". [...] Esse sentimento "oceânico" não tem, em si, nada de propriamente religioso. Pelo que dele vivi, tenho até a impressão oposta: quem se sente "em unidade com o Todo" não precisa de outra coisa. Um Deus? Para quê? O universo basta. Uma Igreja? Inútil. O mundo basta. Uma fé? Para quê? A experiência basta.


4 comentários:

Laís disse...

um belo texto. acrescentarei o livro à minha lista de leituras a fazer.

Serpsico disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Luciana disse...

Estou curiosa para ler esse livro. Estou lendo o livro "Inteligências Múltiplas: um conceito reformulado" de Gardner, no qual o autor fala da inteligência existencial que inclui experiências como a que Comte-Sponville descreve no trecho do livro que vc colocou, porém Gardner prefere não usar o termo "espiritual" porque, segundo ele, os defensores de uma "inteligência espiritual", dizem que ela leva a uma verdade mais profunda e elevada, neste ponto Garner argumenta que saímos do campo da inteligência e entramos no campo do dogma. E vc, não acha o termo "espiritual" perigoso pelas diversas concepções que se tem dele?

Ercy Soar disse...

Acho, sim, e eu mesmo não o utilizo. Quando alguém fala em físico, psíquico e espiritual, entendo as ultimas duas coisas como uma só (em última instância, as três coisas são uma só!). Mas no contexto do livro, que é filosófico, acho perfeitamente adequado. Ele fala de "espiritualidade" como uma dimensão da vida mental, nada mais.