20 julho 2007

Insultus morbi primus


Primeira das Meditações de John Donne, publicadas originalmente em 1624, sob o título geral de Devoções para Ocasiões Emergentes e os Distintos Estágios de minha Enfermidade. Esta obra foi escrita ao longo de uma doença que levaria Donne à morte. As Meditações ganharam uma recente edição bilíngüe (inglês/português) da Landmark. Mais sobre John Donne aqui.

VARIÁVEL, e conseqüentemente miserável, é a condição do homem! Nesse minuto estava bem e agora estou doente, no mesmo minuto. Surpreende-me essa mudança repentina, a alteração para pior, e não posso imputá-Ia nenhuma causa, nem chamá-la por nenhum nome. Estudamos a saúde, e deliberamos sobre nossas carnes, e bebemos e respiramos e nos exercitamos, além de talhar e polir cada pedra utilizada nessa construção; e assim a nossa saúde é um trabalho longo e regular, que em minutos um canhão abate a tudo, põe fim a tudo, demole tudo; uma enfermidade não prevista por toda a nossa diligência, inesperada por toda nossa curiosidade; e deste modo, injusta, se considerarmos somente a desordem, que nos exige, nos seqüestra, nos possui e destrói em instantes. Ó miserável condição do homem!


18 julho 2007

A descoberta dos livros

Segmento de um capítulo do livro autobiográfico Infância, de Graciliano Ramos. Outro relato semelhante sobre a admiração maravilhada e a curiosidade diante de todos os segredos contidos nos livros encontra-se em "As palavras", de J-P Sartre, que qualquer dia publico aqui.


APARECEU uma dificuldade, insolúvel durante meses. Como adquirir livros? No fim da história do lenhador, dos fugitivos e dos lobos havia um pequeno catálogo. Cinco, seis tostões o volume. Tencionei comprar alguns, mas José Batista me afirmou que aquilo era preço de Lisboa, em moeda forte. E Lisboa ficava longe.

Invoquei, num desespero, o socorro de Emília. Eu preecisava ler, não os compêndios escolares, insossos, mas avennturas, justiça, amor, vinganças, coisas até então desconheecidas. Em falta disso, agarrava-me a jornais e almanaques, decifrava as efemérides e anedotas das folhinhas. Esses retalhos me excitavam o desejo, que se ia transformando em idéia fixa. Queria isolar-me, como fiz quando nos mudamos em razão de consertos na casa. Para bem dizer, os outros é que se mudaram. A pretexto de ver os trabalhos, escapulia-me com o romance debaixo do paletó, voltava, desviava-me dos pedreiros, serventes e pintores, ia esconder-me na sala. Mergulhava numa espreguiçadeira e, empoeirado, sujo de cal, sentindo o cheiro das tintas, passava horas adivinhando a narrativa, à luz que se coava pelos vidros baços. Privara-me desse refúgio. E onde conseguir livros?

Emília tentou auxiliar-me, contou pelos dedos os possuidores prováveis de bibliotecas, sisudos, inacessíveis: dr. Mota Lima, professor Rijo, padre Loureiro. Não me arrisscaria a chateá-Ios. Mais próximo, havia o tabelião Jerônimo Barreto. Diariamente, percorrendo a ladeira da Matriz, demorava-me em frente do cartório dele, enfiava os olhos famintos pela janela, via numa estante, em fileiras densas, bonitas encadernações de cores vivas. À mesa larga, em mangas de camisa, o funcionário manejava instrumentos jurídicos. E um respeito cheio de inveja me detinha na calçada. Atribuí àquele rapaz moreno ciência poderosa, estranhei vê-lo, simples e calmo, juntar-se aos freqüentadores da loja, onde metia na conversa Robespierre e Marat, dois tipos que venerei antes de me chegar qualquer notícia de revolução e da França.

Esperei que Emília falasse a Jerônimo. Recusou-se. Expus a situação a José Batista, o único empregado que não me inspirava rancor. José Batista fechou o diário, escutou-me, julgou dispensáveis os medianeiros, pois a minha preetensão era modesta. Eu a considerava exorbitante.

Saí do escritório num desânimo. Impossível entender-me com o homem sabido, conhecedor de Marat, Robespierrre, outros que me fugiam da memória e da língua. Essas personagens me acovardavam. E o proprietário delas guardava-as com certeza ciumento, não deixaria mãos bisonhas manchá-las de suor. Afirmei, repeti mentalmente que não me avizinharia de Jerônimo Barreto.

Dirigi-me à casa, subi a calçada, retardei o passo, como de costume, diante das procurações e públicas-formas. E bati à porta. Um minuto depois estava na sala, explicando meu infortúnio, solicitando o empréstimo de uma daquelas maravilhas. Mais tarde me assombrou o arranco de energia, que em horas de tormento se reproduziu. Como veio semelhante desígnio? De fato não houve desígnio. Foi uma inexplicável desaparição da timidez, quase a desapariição de mim mesmo. Expressei-me claro, exibi os gadanhos limpos, assegurei que não dobraria as folhas, não as estragaria com saliva. Jerônimo abriu a estante, entregou-me sorrrindo o Guarani, convidou-me a voltar, franqueou-me as coleções todas.

09 julho 2007

As teorias da identidade (I)

O ser humano não se diferencia de outros animais simplesmente porque pensa, mas sim porque é capaz de pensar sobre o próprio pensamento. Tampouco se diferencia por ter uma consciência de si mesmo, pois já está provado que os primatas superiores (como os chimpanzés) também a têm. O ser humano se diferencia por ter consciência da própria consciência! Assim, somente nós podemos, além de saber quem somos, nos perguntarmos, “mas afinal, o que é o Eu?”
A maioria das pessoas é capaz de se perguntar “quem sou eu?”, ou seja, quais as minhas características, quais os atributos de minha identidade que me fazem semelhante ou diverso de outras pessoas? Entretanto, a pergunta “o que é o Eu?” não costuma ocupar as mentes de grandes parcelas da humanidade. Se nos detivermos sobre esta pergunta, talvez sequer saibamos dizer se o Eu (com maiúscula para diferenciar o substantivo do pronome pessoal) é um substantivo concreto (como uma “pessoa”) ou abstrato (como o “egoísmo”). O Eu não é nem bem uma coisa nem outra, mas o que os filósofos e lingüistas chamam de “constructo”, algo que existe na teoria e que pode ser percebido experimentalmente, mas não tem uma existência concreta, como o centro de gravidade ou a força magnética. É este Eu que em inglês se chama the self; em francês moi-même, assim como, em português, podemos denominar de o “si-mesmo”.

Voltando à pergunta sobre a natureza do Eu, apesar de ocupar poucas mentes, ela está no centro das preocupações filosóficas desde, pelo menos, os tempos de Sócrates. Ele é tido como o primeiro filósofo a pensar sobre a condição de “indivíduo”, como aquele que deve ser responsável pelas próprias escolhas morais.
É bem verdade que perguntas como “quem sou eu?” são o ponto de partida das reflexões filosóficas sobre a natureza da identidade. Tomemos, por exemplo, a definição de self (Eu) segundo o dicionário Webster´s (uma espécie de Aurélio norte-americano): “é a pessoa integral de um indivíduo; o caráter ou comportamento típico de um indivíduo (como quando se diz “o seu verdadeiro Eu foi revelado”); um comportamento ou caráter temporário do indivíduo (como quando se diz “ele mostrou o melhor de si-mesmo”); a união de elementos (como corpo, emoções, pensamentos e sensações) que constituem a individualidade ou a identidade de um pessoa”.
Quantas indagações surgem desta simples – e aparentemente tão clara – definição! Perguntas que não nos fazemos normalmente, mas que os teóricos da mente (filósofos, cientistas sociais, psicólogos, etc.) se fazem. Em primeiro lugar, dizer que é a pessoa total do in-divíduo significa, pela etimologia da palavra, dizer que o Eu é indivisível, ou seja, que cada pessoa é uma só e, por dedução, sempre a mesma! Sabemos muito bem que tal conceito de pessoa é problemático. Não apenas nossa experiência pessoal nos permite perceber, como as teorias contemporâneas sobre a identidade nos confirmam, que somos ao mesmo tempo um e muitos “Eus”. O meu Eu de professor pode ser bastante diverso do meu Eu de terapeuta, que por sua vez difere substancialmente do Eu familiar, embora todos tenham um núcleo em comum.
Um segundo sinônimo, que por motivos práticos eu utilizei inclusive no título deste artigo, é “identidade”. Bem, novamente aqui devemos recorrer a etimologia da palavra, que vem do étimo latino idem, ou seja, “o mesmo”. Mas, será que nosso Eu é sempre o mesmo, no sentido de ser sempre igual? Já assinalei no parágrafo anterior que esta idéia precisa ser colocada em perspectiva. Somos a um só tempo diferentes (tanto em situações diversas no mesmo tempo, quanto ao longo de nossas vidas, na medida em que passamos por diferentes idades). Antes de ser una e constante, a nossa identidade é dinâmica e multifacetada (aqui há uma contradição de termos, mas não podemos fugir ao uso corrente das palavras). A questão que se coloca para a psicologia é saber em que medida o sujeito se mantém o mesmo, e tem uma vivência suficientemente forte do que constitui o si-mesmo, apesar da passagem do tempo e das mudanças contextuais.
Os antropólogos nos informam que se desconhece qualquer cultura humana que não tenha um termo para designar o Eu, ou pelo menos uma noção abstrata de identidade. Apesar disto, as maneiras como a identidade é pensada ao longo do tempo e através das culturas varia grandemente. Essa noção de Eu como algo indivisível, coeso e permanente é apenas uma delas, e tem sido a maneira predominante na cultura ocidental da qual fazemos parte. Este ponto de vista deve muito aos pensadores da modernidade, que retomaram as reflexões dos filósofos clássicos após o término da Idade Média. Mas isto é assunto para o próximo mês.

Artigo publicado também no Floripa Total.

07 julho 2007

Reforma ortográfica

Está para entrar em vigor a unificação da Língua Portuguesa que prevê, entre outras coisas, um alfabeto de 26 letras.

"A frequência com que eles leem no voo é heroica!".

Ao que tudo indica, a frase inicial desse texto possui pelo menos quatro erros de ortografia. Mas até o final do ano, quando deve entrar em vigor o "Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa", ela estará corretíssima. Os países-irmãos Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste terão, enfim, uma única forma de escrever.

As mudanças só vão acontecer porque três dos oito membros da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) ratificaram as regras gramaticais do documento proposto em 1990. Brasil e Cabo Verde já haviam assinado o acordo e esperavam a terceira adesão, que veio no final do ano passado, em novembro, por São Tomé e Príncipe.

Tão logo as regras sejam incorporadas ao idioma, inicia-se o período de transição no qual ministérios da educação, associações e academias de letras, editores e produtores de materiais didáticos recebam as novas regras ortográficas e possam, gradativamente, reimprimir livros, dicionários, etc.

O português é a terceira língua ocidental mais falada, após o inglês e o espanhol. A ocorrência de ter duas ortografias atrapalha a divulgação do idioma e a sua prática em eventos internacionais. Sua unificação, no entanto, facilitará a definição de critérios para exames e certificados para estrangeiros.

Com as modificações propostas no acordo, calcula-se que 1,6% do vocabulário de Portugal seja modificado. No Brasil, a mudança será bem menor: 0,45% das palavras terão a escrita alterada. Mas apesar das mudanças ortográficas, serão conservadas as pronúncias típicas de cada país.

As novas normas ortográficas farão com que os portugueses, por exemplo, deixem de escrever "húmido" para escrever "úmido". Também desaparecem da língua escrita, em Portugal, o "c" e o "p" nas palavras onde ele não é pronunciado, como nas palavras "acção", "acto", "adopção", "baptismo", "óptimo" e "Egipto".

Mas também os brasileiros terão que se acostumar com algumas mudanças que, a priori, parecem estranhas. As paroxítonas terminadas em "o" duplo, por exemplo, não terão mais acento circunflexo. Ao invés de "abençôo", "enjôo" ou "vôo", os brasileiro terão que escrever "abençoo", "enjoo" e "voo".

Também não se usará mais o acento circunflexo nas terceiras pessoas do plural do presente do indicativo ou do subjuntivo dos verbos "crer", "dar", "ler", "ver" e seus decorrentes, ficando correta a grafia "creem", "deem", "leem" e "veem"..

O trema desaparece completamente. Estará correto escrever "linguiça", "sequência", "frequência" e "quinquênio" ao invés de lingüiça, seqüência, freqüência e qüinqüênio.

O alfabeto deixa de ter 23 letras para ter 26, com a incorporação do "k", do "w" e do "y" e o acento deixará de ser usado para diferenciar "pára" (verbo) de "para" (preposição).

Outras duas mudanças: criação de alguns casos de dupla grafia para fazer diferenciação, como o uso do acento agudo na primeira pessoa do plural do pretérito perfeito dos verbos da primeira conjugação, tais como "louvámos" em oposição a "louvamos" e "amámos" em oposição a "amamos", além da eliminação do acento agudo nos ditongos abertos "ei" e "oi" de palavras paroxítonas, como "assembléia", "idéia", "heróica" e "jibóia".

A escrita padronizada para todos os usuários do português foi um estandarte de Antônio Houaiss, um dos grandes homens de letras do Brasil contemporâneo, falecido em março de 1999. O filólogo considerava importante que todos os países lusófonos tivessem uma mesma ortografia. No seu livro "Sugestões para uma política da língua", Antônio Houaiss defendia a essência de embasamentos comuns na variedade do português falado no Brasil e em Portugal.

(Texto recebido via e-mail)