07 março 2007

Interdisciplinaridade

Tenho um capítulo publicado no livro Paradigmas da Modernidade e sua Contestação, organizado por Franz Brüseke e Alan Serrano, com textos produzidos por alunos e professores do Doutorado Interdisciplinar em Ciências Humanas da UFSC (Editora Insular, Florianópolis, 2006).
O capítulo leva o pomposo título de "Para uma concepção ecossistêmica e interdisciplinar do self". Nele, faço um breve apanhado das transformações pelas quais vem passando o paradigma da ciência (da ciência tradicional à contemporânea), o surgimento e as bases do pensamento sistêmico, e uma proposta de concepção interdisciplinar de self (ou seja, do "eu", da identidade ou da mente). A figura abaixo reproduz um dos diagramas que utilizo para ilustrar os vários aspectos complementares das teorias do self, os modelos aos quais eles correspondem (médico, psicodinâmico e interpessoal), e as formas de intervenção terapêuticas correspondentes. Este esquema permite pensar o self de maneira interdisciplinar, sob uma lógica que Edgar Morin denomina de "aditiva" (que agrega diferentes perspectivas), em oposição à lógica "disjuntiva" (que separa), com a qual opera a ciência tradicional. Abaixo, a transcrição de segmento do texto original no qual tento deixar claro como penso a interdisciplinaridade na clínica psiquiátrica.

Pensado em termos da clínica psiquiátrica, este modelo permite a compreensão de como os relatos dos problemas que nos são trazidos pelos clientes podem ser organizados de acordo com um ou mais dos modelos operativos do médico/terapeuta, dando origem a diferentes "histórias clínicas" e condutas terapêuticas. A partir de queixas genéricas tais como irritabilidade, tristeza, insatisfação crônica consigo mesmo, e brigas constantes com o cônjuge, abrem-se múltiplas possibilidades de investigação, organização e denominação dos problemas. Os "sintomas" (usar esta palavra já implica numa determinada opção epistemológica) podem ser definidos como "distimia" (um tipo particular de "transtorno de humor", conforme a Classificação Internacional de Doenças), o que conduz ao uso de medicamenntos antidepressivos. As mesmas queixas podem ser caracterizaadas como expressão de uma "estrutura narcísica de personalidade" (segundo uma psicopatologia psicanalítica), caso em que serão abordadas as falhas do desenvolvimento psicossexual do indivíduo, através de uma psicoterapia. Uma terceira possibilidade (e não a última delas) é a organização do relato centrada nos problemas da relação conjugal, na focalização das pautas de interação familiar e de retroalimentação das condutas (note-se que, no campo das terapias familiares, há uma tendência hegemônica ao abandono das nosografias - i.e., ao uso de diagnósticos -, tanto médicas quanto psicológicas), implicando esta opção numa correspondente proposta de intervenção na forma de terapia conjugal ou familiar.

Há problemas para os quais um paradigma pode ter se estabelecido como dominante, e impor-se sobre os demais. É o caso do "transtorno afetivo bipolar" ou das "esquizofrenias", para cuja compreensão e tratamento o modelo médico tem-se mostrado indispensável. O mesmo não se pode afirmar sobre os sintomas conversivos e os comportamentos histriônicos, que constituem um território pouco permeável ao modelo médico, e propício às abordagens psicodinâmicas. Por outro lado, a terapia familiar tem se mostrado especialmente útil no tratamento de problemas de conduta na infància e na adolescência, que via de regra respondem de forma pobre a outras modalidades terapêuticas isoladas, apenas para ficarmos no campo dos exemplos mais comuns.

O fundamental, na perspectiva que vimos construindo, é poder situar-se epistemologicamente em relação a esses modelos, compreendê-Ios como diferentes recortes da realidade, perceber suas virtualidades e limitações, e operá-Ios segundo os conhecimentos e treinamentos de cada um. Isto significa, tammbém, reconhecer a unidade e a complexidade do ser humano, ao mesmo tempo físico, biológico, psíquico, cultural, social, histórico, caracterizado, como afirma Morin, por sua condição tripartite de um indivíduo que se situa entre a espécie e a sociedade.

Um comentário:

JD disse...

Muito bom este post, Ercy. Para continuar em Morin, acho interessante pensar não apenas na perspectiva da complexidade, mas das complexidades, no plural mesmo, o que torna tudo mais complexo ainda.
Parabéns pelo texto, e não deixe de nos brindar de vez em quando com posts como este.
Abraços, jd