22 janeiro 2007

As mil e uma noites (2)

ou The Arabian Nights

Impossível, para mim, falar de As Mil e Uma Noites sem lembrar de Jorge Luis Borges, que tinha este livro como um de seus prediletos, e fez dele tema de muitos ensaios e contos. Em 1977 Borges proferiu uma série de sete conferências no Teatro Coliseo de Buenos Aires, e dedicou a terceira delas a As Mil e Uma Noites (as demais foram, respectivamente, a Divina Comédia, o pesadelo, o budismo, a poesia, a cabala e a cegueira). As conferências foram editadas num volume intitulado Siete Noches. Por que este incansável contador de histórias teria preferido chamar o conjunto de suas conferências precisamente de sete noites?
O aporte de Borges é bastante diverso daquele de Rushdie (ver post anterior). Enquanto este parte da obra para levantar questões que poderiam ser caracterizadas como uma crítica ao autoritarismo e ao machismo, o autor argentino mantém o seu estilo clássico, fazendo um passeio pelas inúmeras associações periféricas que a obra suscita.
É assim que Borges inicia sua preleção:

Senhoras e senhores:

O descobrimento do Oriente foi um acontecimento capital na história das nações ocidentais. Seria mais exato falar de uma contínua consciência do Oriente, comparável à presença da Pérsia na história grega. Além dessa consciência do Oriente ser algo vasto, imóvel, magnífico e incompreensível, há momentos de culminância. Vou indicar alguns. Com isso, entraremos de maneira perfeitamente adequada num assunto que tanto amo desde minha infância: o Livro das mil e uma noites ou, como se chamou na versão inglesa (que li primeiro), The Arabian Nights, Noites árabes; no título inglês há também um certo mistério, ainda que seja menos belo do que Livro das mil e uma noites.

Enumero alguns fatos. Por exemplo, os nove livros de Heródoto, onde se faz a revelação do Egito, o distante Egito. Digo "distante" porque o espaço se mede pelo tempo, além de que as navegações eram muito arriscadas. Para os gregos, o mundo egípcio era maior. Eles o consideravam misterioso.

Mais tarde examinaremos as palavras Oriente e Ocidente, que não podemos definir as que são verdadeiras. Acontece com elas o que Santo Agostinho dizia sobre o tempo: "O que é o tempo? Se não me perguntam, eu sei. Se me perguntam, desconheço". O que são o Oriente e o Ocidente? Se me perguntam, desconheço. Vamos procurar uma aproximação.

Com seu estilo absolutamente não linear, Borges vai mencionando os caminhos que marcaram a entrada no Oriente na cultura ocidental, passando pela influência que a Ilíada teria exercido sobre Alexandre da Macedônia; pelas referências feitas por Virgílio; e, mais adiante, os relatos de Marco Pólo. Tudo isso para chegar a outro objeto de deleite de Borges (e de seus leitores): o título! O título, diz ele, "é belo não só porque é lindo (como é lindo Os crepúsculos do jardim, de Lugones) mas também porque dá vontade de ler o livro.

Nesse título há uma beleza muito particular, talvez pelo fato de que a palavra "mil" seja para nós quase sinônimo de "infinito". Falar em mil noites é falar em infinitas noites - muitas e inumeráveis noites. Dizer "mil e uma noites" é acrescentar uma além do infinito. Há, em inglês, uma expressão curiosa. Muitas vezes, não se diz simplesmente for ever ("para sempre") mas for ever and a day ("para sempre mais um dia"). Ou seja, acrescenta-se um dia à palavra "sempre". Isso lembra a dedicatória que Reine fez a uma mulher: "Eu te amarei eternamente e ainda depois" .

Antes de relatar algumas das histórias que considera mais interessantes, Borges conta um pouco da história do livro e de suas traduções. Ela se inicia por volta do século XV, em Alexandria, com a compilação de uma série de contos que teriam sido depois relatados na Índia, depois na Pérsia, a seguir na Ásia Menor e, finalmente, acabaram sendo compilados no Cairo, já escritos em árabe. A primeira tradução européia aparece em 1704, com o primeiro dos seis volumes do orientalista francês Antoine Galland. Depois sucessivas edições e traduções fizeram com que se corroessem ainda mais as poucas certezas que sobre ele existiam. Não me deterei nos detalhes dessa aventura, que está narrada minuciosamente por Borges, a quem se pode facilmente recorrer. (Acima, a capa da edição brasileira de Sete Noites, de 1983, pela Editora Max Limonad. Deve haver alguma mais recente, e seguramente encontra-se o livro nas obras completas, já publicadas em português).
Para encerrar, quero recuperar da conferência de Borges uma passagem que me tocou profundamente:

A gente tem vontade de perder-se em As mil e uma noites, pois sabe que, se entrar nesse livro, é capaz de esquecer nosso pobre destino humano. Entrando nele, pode-se entrar num mundo que está repleto de figuras arquetípicas e de indivíduos também. No título de As mil e uma noites existe algo muito importante: a sugestão de que se trata de um livro infinito. E ele é, virtualmente. Os árabes dizem que ninguém pode ler As mil e uma noites até o fim. Não por tédio, mas porque se sente que o livro é infinito. Tenho em casa os dezessete volumes da tradução de Burton. Sei que nunca os lerei todos mas sei também que essas noites estão sempre à minha espera. Ainda que minha vida seja infeliz, os dezessete volumes aí estarão. Aí estará essa espécie de eternidade que são As mil e uma noites do Oriente.

Borges não está aqui falando apenas desse livro em particular, que é o seu preferido. Está falando de sua paixão pelos livros em geral, e assim toca o coração de todos aqueles que compartilham desse sentimento. Costumo dizer que a “maturidade” é aquilo que sentimos quando nos damos conta de que jamais conseguiremos ler toda nossa biblioteca... Borges diz o mesmo, com a diferença de que sabe dizê-lo com erudição e estilo, fazendo de As mil e uma noites o arquétipo de todos os livros.

6 comentários:

Julia disse...

Ercy,

Confirmo o que você diz:

-Costumo dizer que a “maturidade” é aquilo que sentimos quando nos damos conta de que jamais conseguiremos ler toda nossa biblioteca...

Sofro da sindrome da bibliotecomanie!

Claro so compro livro em que o autor me inspira.As vezes digo tal livro ou tal ou tal vou ler quando a idade estiver pedindo hahahahahahah mas do jeito que vão as evoluções ciberneticas penso que minha biblio vai servir em epocas diferentes onde as "paginas" estaram beeeeem amarelas hahahahahahahaha

LesPaul disse...

Esse exemplar da MAX LIMONAD me abriu as portas de Borges. A ele (livro) datado de 1980/81 devo uma importante conquista em minha vida: convencer meu pai, cético pelo ateísmo creditado a Borges, em desvelar um dos grandes compiladores da cultura universal e descobrir nele suas reescrituras, reedições e invencionices literárias 'sacanas', sempre cultas. E lembro o dia que, li por telefone uma página do SETE NOITES sobre cegueira (episódio em que é alçado à direção da biblioteca de Buenos Aires e a exemplo de seu antecessor, a cegueira já lhe alcançara a luz. A segunda é uma referência boba e pessoal. A editora (e só percebi isso depois de 10 anos) ficava no centro velho de São Paulo perto de onde 'parei' ainda bem novo e tanso, quando tentei a carreira na Gazeta Mercantil, Vejinha SP e Estadão. Mas isso é um capítulo a parte.

LesPaul disse...

Complementando: ao fim do telefonema estávamos emocionados. 15 anos depois e uma biblioteca borgiana bastante farta pude ajudá-lo (pai) na pesquisa que o levou a escrever "Borges, Um Giróvago", acho que seu 4o. livro.

Ercy Soar disse...

LesPauls,
talvez lhe interesse conhecer um livrinho que garimpei na Atheneu: "La filosofía de Borges", de Juan Nuño, numa pobre ediçao do Fondo de Cultura. Ele estuda os fundamentos filosóficos, principalmente platônicos, que, além de tudo, teria recorrido a mitos para abordar noçoes difícieis, assim como Borges. Os vários temas reiterativos sao exemplificados cada um por um conto: los espejos abominables (Tlon, uqbar...), hablar es incurrir en tautologías (La biblioteca), los mil y un mundos (Pierre Menard), el yo ilusório (el otro), los arquetipos y los esplendores (las ruinas), etc. Da contracapa: "una visión filosófica de su obra debe descifrar si él es un escritor cuyo pensamiento avanza entre abstracciones o sólo es un productor de imágenes."

Ercy Soar disse...

Que tal um café no café da Saraiva do Iguatemi? Fica aberto todo final de semana.

Ercy Soar disse...

Salvei os tres posts de As Mil e Uma Noites num link de Literatura