28 janeiro 2007

Riscos à segurança ontológica

[...] a própria existência de Zelig é uma não-existência. Desprovido de personalidade, com suas qualidades humanas há muito perdidas no ocaso da vida, ele está sentado, sozinho, encarando em silencio o espaço; um número, um ninguém, um fenômeno em atuação. Ele, que só queria se encaixar, participar, passar desapercebido por seus inimigos, e ser amado; nem se encaixa, nem participa. (

Woody Allen, no filme Zelig)

Já mencionei em várias ocasiões os desafios à segurança ontológica do indivíduo contemporâneo. Nas condições de vida das sociedades urbanas contemporâneas, a pessoa está submersa num mar de informações, modelos desencontrados, possibilidades alternativas, que a colocam em permanente confronto com suas próprias crenças e com os modelos de conduta que porventura já tenha internalizado. Encontra-se no estado de “multifrenia”, termo com o qual Gergen (1991) designa a condição humana nos contextos culturais da pós-modernidade: a identidade já não é vivenciada como una e estável, mas sim sujeita a uma multiplicidade de manifestações, por vezes díspares e inusitadas aos olhos de um observador externo. Em outras palavras, já não existe mais uma essência individual à qual a pessoa permanece fiel ou comprometida, mas “a identidade é continuamente emergente, re-formada e redirecionada na medida em que a pessoa se move num mar de relacionamentos em constante mudança” (p. 139).
Assim como no filme Celebridade, de Woody Allen, os cenários mudam, e as personagens assumem novos papéis sociais numa velocidade estonteante: um repórter que ora se encontra envolvido no meio cinematográfico, ora nos círculos da alta moda, ora num teatro underground de Nova York; a esposa traída que subitamente se vê alçada à condição de celebridade da televisão... Todas as possibilidades estão abertas, a identidade passa a ser vista como potencialidade, virtualidade, possibilidade permanente de expressão de uma subjetividade multifacetada e contextual.
A falta de referentes estáveis de tempo e espaço, o rompimento com as tradições culturais e a perda do papel modelador e moderador da autoridade religiosa, expõem a indivíduo ao desafio de manter um frágil equilíbrio entre o seu núcleo de identidade pessoal – do qual são parte importante as memórias que lhe dão a sensação de ser um só, apesar de tantos – e as virtualidades, os simulacros, as novas formas de organização social.
Os pilares sobre os quais a noção de identidade era tradicionalmente construída - entre os quais a racionalidade e a coerência interna – estão sob a ação de permanente corrosão. Mais do que isso, perdem força os modelos culturalmente estabelecidos sobre “aquilo que se deve ser”. A expressão psicopatológica deste fenômeno é “personalidade pastiche”, o típico camaleão social, sempre buscando conformar-se ao seu entorno, inseguro de manter características que não sejam consensuais com a do grupo social. A personalidade pastiche, tão bem representada em Zelig, outro filme de Woody Allen, vê-se imersa num mundo em que já não há referenciais seguros quanto aos modelos de conduta, os padrões estéticos, ou os balizamentos éticos da convivência social.
Até que ponto estamos preparados para acompanhar os processos de mudanças na formas de organização social e de representação do mundo e do ser humano? Não estaríamos todos sujeitos aos efeitos de um descompasso entre a nossa capacidade cognitiva e emocional de elaborar todas essas mudanças, e a velocidade com a qual ocorrem? Não seria de se supor que nosso aparato cognitivo esteja ainda condicionado a pensar com as referências relativamente estáveis e seguras das sociedades tradicionais? E a ciência, está ela preparada para construir modelos teóricos interdisciplinares que dêem conta da complexidade da condição humana e das vicissitudes da vida na sociedade contemporânea?

Aqui aparece o termo "multifrenia", que de certa forma inspirou o nome deste blog.
Na foto, Woody Allen como Zelig, metamorfoseado em índio americano.

4 comentários:

Claudio Costa disse...

Ser ou não ser, eis a questão! Sempre é bom passar por aqui e refletir (ou me divertir) com seus posts. Ah! aprendo, também. Bom domingo!

Anônimo disse...

Ercy,

Woody Allen e Cameleão; gosto dos dois.Insegurançahummmmvolto depois vou reler tudinho de novo pelo prazer!

Bon Dimanche!

Julia disse...

Ercy,

Declaro ser MULTIFRENIA et je m'en fous!!!!!!!!!!hahahaha

continuo a reiletura e informo o progresão da esquizo!hahahahahahah

Julia disse...

Ercy,

Me indetifico com o ZELIG!EU NÃO EXISTO E NUNCA EXISTI!

Sou um caso de pesquisa e me delicio de ser um camelão!

Claro não sou de" jeito algum INFLUENCIAVEL!

ESTE é MEU DEFEITO CAPITAL!