19 janeiro 2007

O apanhador


The Catcher in the Rye é o livro que Mark Chapman pediu a John Lennon que autografasse antes de assassiná-lo. O que há de especial nesta obra J.D. Salinger, que o faz tão famoso? A mística que cobre o livro foi consideravelmente aumentada desde que Salinger, escritor americano, fez várias exigências ao seu editor, entre as quais que não fosse feita nenhuma publicidade do livro, e algum tempo depois recolheu-se ao anonimato numa pequena cidade americana, não tendo mais publicado nada desde então, além de manter-se afastado de qualquer contato com a mídia.
O Apanhador no Campo de Centeio é uma narrativa em primeira pessoa de alguns dias na vida do adolescente Holden Caulfield, que acaba de ser expulso da sua terceira escola bem às vésperas do Natal, nos EUA do pós-guerra. Caulfield é um “rebelde sem causa” e vive buscando qualquer coisa que preencha seu vazio existencial. Seu radicalismo (que hoje pode por vezes parecer um tanto prosaico), manifesta-se numa linguagem coloquial, repleta de gírias e palavrões (um problema na tradução brasileira), e no comportamento impulsivo e instável. O texto segue a linha joyceana do fluxo de consciência, com as frases jorrando aos borbotões, saltando de um assunto para o outro sem grande cerimônia, parecendo obra do acaso. (Na verdade, tudo isto é planejadíssimo, e existe até mesmo um capítulo no qual, sob uma sutil máscara, é discutido o papel das digressões na narrativa.) Em O Apanhador no Campo de Centeio o fluxo de consciência funciona particularmente bem, pois permite expressar a instabilidade emocional do protagonista não somente no conteúdo da narrativa mas também em sua forma. (ref.: texto de Nemo Nox, editor do blog Por um Punhado de Pixels)
Na transcrição abaixo, o protagonista tenta convencer a garota com quem acaba de se encontrar a fugir com ele, numa viagem sem qualquer planejamento ou destino certo.
- Eu disse que não, que não vai ter lugar maravilhoso nenhum para se ir, depois que eu terminar a universidade e tudo. Vê se escuta direito. Ia ser completamente diferente. Teríamos que descer de elevador, com as malas e a tralha toda. Íamos ter que telefonar para todo mundo, dizendo "até à volta", e mandar cartões postais dos hotéis e tudo. E eu estaria trabalhando em algum escritório, ganhando um dinheirão, e indo para o trabalho de táxi ou nos ônibus da Avenida Madison, e lendo jornais, e jogando bridge o tempo todo, e indo ao cinema, e vendo uma porção de documentários idiotas e traillers e jornais. Jornais cinematográficos. Puxa vida. Tem sempre uma corrida de cavalos imbecil, e uma dona quebrando uma garrafa no casco de um navio, e um chipanzé andando numa droga duma bicicleta, vestido de callças. Não ia ser a mesma coisa nem um pouquinho. Você não entendeu nada do que eu falei.

Um comentário:

Julia disse...

Ercy,

Como disse, ja parei varias vezes neste post e a cda vez sinto que a questão é LIBERDADE TODA LIBERDADE E SO LIBERDADE que nos leva ao desejo intenso de sair das nossas prisões preestabelecidas.

Ainda voltarei e é possivel que procure a vesão escrita em Français.