08 fevereiro 2007

Infância

Segmento do livro auto-biográfico de Graciliano Ramos, Infância. A ilustração é de Darcy Penteado.
Neste trecho, Graciliano está se referindo a suas primeiras memórias. Note-se, inicialmente, aquilo que a psicanálise denomina de "objetos parciais", ou seja, que nos primeiros anos de vida a criança não percebe os adultos como seres completos, senão que apenas partes deles, através de impressões fragmentárias. Aqui encontramos também um belo exemplo de metonímia, a figura de linguagem caracterizada pela substituição do todo pela parte. Neste caso, as "mãos" substituem as pessoas.
Meu pai e minha mãe conservavam-se grandes, temerosos, incógnitos. Revejo pedaços deles, rugas, olhos raivosos, bocas irritadas e sem lábios, mãos grossas e calosas, finas e leves, transparentes. Ouço pancadas, tiros, pragas, tilintar de esporas, batecum de sapatões no tijolo gasto. Retalhos e sons dispersavam-se. Medo. Foi o medo que me orientou nos primeiros anos, pavor. Depois as mãos finas se afastaram das grossas. lentamente se delinearam dois seres que me impuseram obediência e respeito. Habituei-me a essas mãos, cheguei a gostar delas. Nunca as finas me trataram bem, mas às vezes molhavam-se de lágrimas - e os meus receios esmoreciam. As grossas, muito rudes, abrandavam em certos momentos. O vozeirão que as comandava perdia a aspereza, um riso cavernoso estrondava - e os perigos ocultos em todos os recantos fugiam, deixavam em sossego os viventes miúdos: alguns cachorros, um casal de moleques, duas meninas e eu.

3 comentários:

invisivel disse...

Acho dificil compreender que uma criança possa ter vivido no medo.Mas sei existe.Mesmo assim não consigo entender.

Art disse...

prá lá das metalepses e das mãos que afagam e afogam, as mãos aparecem de forma recorrente, nos mais variados discursos, num piscar de olhos, vejo mãos que se tocam, apertam, anéis, palmadas, suadas, geladas, unhas roídas e coloridas... um milhão de situações e vinte milhões de dedos, destas mãos que tanto falam...
bela lembrança e bela passagem!

malu campos disse...

Sempre lembro de uma frase que minha mae dizia:
"Fica sempre um pouco de perfume nas maos que oferecem "rosas"."

As maos dos meus pais eram bem cheirosinhas.