28 fevereiro 2007

Seja você mesmo!

Artigo publicado originalmente na edição número 5 do Floripa Total, de fevereiro de 2005.

Você já dever ter ouvido aquela frase: “conhece-te a ti mesmo!” Pois é, ela estava escrita bem na entrada do oráculo de Delfos, na Grécia Antiga. Quem acabou levando os créditos desta sacada foi mesmo Sócrates, mas não sem alguma razão. Ele foi um dos primeiros a convidar os seus contemporâneos a refletir sobre a própria conduta, as próprias escolhas morais, e a buscar dentro de si a própria verdade. De lá pra cá, muita água já rolou, e essa idéia ficou como mais um projeto a ser realizado por nós...
Nas sociedades antigas, as pessoas tinham identidades que eram ditadas, muito mais do que hoje, pela inserção social ou a classe em que nasciam: escravos ou homens livres; servos da gleba ou senhores feudais; soldados, membros do clero ou da realeza... Ninguém parava pra pensar (ou pelo menos não temos registro disso) “o que eu quero ser?”, pois isto já estava em grande medida pré-determinado.
A primeira autobiografia introspectiva de que se tem notícia foi escrita por Santo Agostinho, lá pelo finalzinho do quarto século da era cristã. (Autobiografia introspectiva é um nome bonito pra “memórias”.) Em suas Confissões, ele escreveu: “chego aos campos e vastos palácios da memória... É lá que encontro a mim mesmo, e recordo das ações que fiz, o seu tempo, lugar, e até os sentimentos que me dominavam ao praticá-las...”
Mas nem todo mundo era um santo agostinho, e os mais comuns dos mortais teriam ainda muito que esperar até poderem se achar “gente”, com direitos e deveres individuais. Durante toda a Idade Média as pessoas tiveram ainda que rezar pela cartilha da Igreja, e só depois do Iluminismo europeu, já por volta do século XVIII, o ser humano ocidental passaria a se pensar como um “indivíduo”, com aspirações pessoais, capacidade de escolha e responsabilidades pelo seu destino.
Mais recentemente ainda, a idéia de ser um indivíduo deu lugar ao sentimento de “individualismo”. Demos o passo fatal da individualidade ao individualismo, e este está presente em todas as dimensões das relações cotidianas: na competição, na falta de cortesia, no desrespeito ao próximo, na destruição de recursos naturais que são de todos... Parece que nos esquecemos que nada somos sem referência aos outros, que tudo aquilo que nos define remete a outra pessoa, a uma família, a uma comunidade, a uma cultura... E, como fazemos parte de muitos grupos diferentes, somos também muitas pessoas diferentes numa única pessoa.
Assim, só posso ser “eu mesmo” se eu souber dizer pra quem eu sou, em que grupo estou inserido, em qual ambiente eu circulo. A sociedade contemporânea, como nunca antes na história da humanidade, tem ampliado as possibilidades de sermos muitos ao mesmo tempo, de darmos vazão a facetas e impulsos diversos de nossa personalidade. O psicólogo social norte-americano Kenneth Gergen diz que o sujeito contemporâneo é um “eu saturado”: saturado de informações, de modelos, de influências, de possibilidades latentes.
Da próxima vez que alguém lhe disser “seja você mesmo!”, pare pra pensar... Primeiro: em algum momento pode deixar de ser você mesmo? Não acredito. Mesmo que você queira se fazer passar por outra pessoa, agir de um jeito que não é o seu habitual, é ainda você... Segundo: há mesmo apenas um eu, ou, de fato, vários eus que se mostram mais ou menos diferentes em cada circunstância.
Isso me faz lembrar de um delicioso livro do italiano Luigi Pirandello, chamado Um, Nenhum e Cem Mil, no qual certo dia o sujeito se dá conta que tem um defeito no nariz que nunca havia notado antes. A partir daí, faz uma tortuosa viagem mental para chegar à conclusão de que “mesmo para si mesmo fulano tem tantas realidades quantos são os seus conhecidos, porque comigo ele se conhece de um modo e, com vocês e com terceiros, de outro, e assim por diante, embora permaneça a ilusão – especialmente nele – de ser um só para todos”.
É, a gente não tem mesmo como fugir de si mesmo, e, portanto, não tem como não ser “eu mesmo” o tempo todo, mesmo sendo, ao mesmo tempo, cem mil. O que a gente pode tentar é se conhecer melhor, conhecer essa multidão de eus que traz dentro de si, para que “eles” e “elas” possam se acomodar melhor, estar em paz; para que a gente saiba o que tem de melhor e o que tem de pior, e possa lançar mão disto quando preciso (de preferência, do que se tem de melhor!!!)

Luigi Pirandello, pintado por seu filho FAUSTO PIRANDELLO.

3 comentários:

gabesquizocamaleãozelig disse...

Adoreiiiiiiiiiiii!

malu disse...

Ja tentei deixar de "ser eu mesma" but sempre acabo me encontrando nas anothers. Now eu entendi why.

shirlei horta disse...

Excelente texto, adorei. Me lembra (pela enésima vez) que eu quero estudar e escrever sobre livre arbítrio - promessa que faço todo primeiro de janeiro. Uma hora eu desencalho, acredite.
Mas como é que uma louca como eu não conhecia este blog!!! Preciso agradecer à Julia pela indicação.