21 fevereiro 2009

versus Gray - 2


Continuação
deste post, sobre o livro Cachorros de palha, de John Gray


Um dos problemas de Gray é a apropriação muito particular que faz dos conceitos, adaptando-os a seu próprio interesse. Por exemplo, para ele as formigas detêm tecnologia, uma vez que são capazes de cultivar colônias de fungos para servirem de alimento. Parece estranho usar a palavra “tecnologia” dissociada da idéia de “ferramenta”. Esta última implica na utilização de algo como algo diferente. Pode ser um osso que serve para agredir ou matar. Pode ser uma vareta que serve para tirar cupins de dentro de sua colônia e se alimentar.

Podemos aceitar sem problemas que outros animais, especialmente primatas, sejam capazes de fazer uso de ferramentas. O animal começa a se tornar animal humano, entre outras coisas, quando pode usar uma ferramenta para fazer outra: uma linha com a qual constrói um machado unindo uma pedra lascada ao cabo, ou com a qual tece uma rede... Formigas, e outros insetos sociais, podem apresentar comportamentos complexos e mesmo divisão de tarefas, mas não produzem ferramentas ou criam novas tecnologias. Até onde se saiba, há milênios seguem reproduzindo esses mesmos comportamentos instintivamente.

Além da construção de novas ferramentas é preciso lembrar outros traços únicos no ser humano, como a menor especialização dos comportamentos -- e consequente maior capacidade de adaptação a ambientes adversos -- a partir da utilização mais complexa das mãos (o polegar opositor) e da bipestação, assim como a capacidade superior de utilização de linguagem oral, para além da emissão de sinais sonoros.

E lá vamos nós de volta à velha e desgastada dicotomia, neste caso, ainda mais problemática: enquanto o humanismo (no sentido que Gray atribui ao termo) sugere a existência de um abismo intransponível entre nós e os outros animais, “o normal é o sentimento animista de ser parte da natureza, assim como tudo o mais. Por mais débil que se revele hoje, o sentimento de partilhar um destino comum com outras coisas vivas está entranhado na psique humana” (grifo meu). Ou demasiado humanos, ou demasiado animais. Isto que é fundamentalismo!

No item “Contra o fundamentalismo – religioso e científico”, Gray acena inicialmente com alguma possibilidade de concordância entre nós. Ele reconhece que “uma vez passadas, formas de vida tradicionais não podem ser recuperadas”, para desespero, talvez, das tribos alternativas. É verdade também que a ciência proporciona um senso de progresso do qual a vida política e a ética nos privam. Mas nosso acordo termina aí. Em “A irracionalidade da ciência”, Gray avalia a ciência tendo como parâmetro o método científico tradicional, cartesiano e positivista.

Relutantemente, tentei ver na crítica a estes fundamentalismos um ponto de convergência com o autor. Entretanto, sua argumentação segue por caminhos tortuosos até chegar à afirmação de que “a ciência é o lugar onde nos refugiamos da incerteza, pois ela nos promete [...] o milagre de nos livrar de pensar, enquanto as igrejas passaram a ser lugares de proteção e refúgio para as dúvidas”. No wonder I can’t understand him! Ele afirma que a ciência é para os que não querem pensar e que as igrejas são o refúgio das dúvidas. Sempre acreditei que a ciência estivesse alicerçada na capacidade de fazer perguntas, de duviar, portanto, e que a religião na capacidade da fé, em poder crer de olhos fechados. Gray coloca isso tudo de pernas para o alto. Vivemos, o autor e eu, em mundos tão diferentes? (Veja o que Nietzsche afirma sobre os crentes.)



Em favor de seu argumento, Gray sustenta que os primeiros cientistas não estavam livres de superstição, citando o misticismo de Newton e de Kepler, baseado exatamente no fundamentalista anti-científico Feyerabend. Avaliar a ciência atual a partir daquela de seus fundadores é forçar a barra. Seu argumento é de que a ciência é irracional também porque na história da ciência muitos cientistas ignoraram as regras do método científico (novamente, o método científico como o parâmetro de ciência racional Nada mais fundamentalista!).

Enfim, razão versus não razão é outra dicotomia cartesiana à qual Gray se apega para defender seus pontos de vista. Recentemente, Antonio Damásio, em seu ótimo O erro de Descartes, argumentou com brilhantismo que a razão jamais está dissociada da emoção. Antes disso, Edgar Morin já propôs um paradigma para a ciência contemporânea que reconheça a criatividade e a intuição, necessárias a qualquer formulação de hipótese. Segundo ele, a ciência deve ser concebida como um conjunto de empreendimentos complementares (ainda que eventualmente estejam em conflito), no qual estão conjugados o empirismo, o racionalismo, a verificação e imaginação. A ciência precisa ser pensada como uma ciência que se autoproduz, que está condicionada historicamente, e cuja autonomia depende do processo de regeneração permanente e de revisão crítica dos dogmatismos e da hiperespecialização.

O debate que necessita ser travado não é entre ciência e não-ciência, mas entre a ciência tradicional e a ciência contemporânea. Que Gray leia um pouco de Morin. Enquanto isso eu leio, sofregamente, Gray...


F
OtO-

Peça de artilharia pesada dos anos 40, nas ruínas do forte da Ilha do Mel, PR. Janeiro de 2009.

7 comentários:

Serpsico disse...

vc pode me enviar os textos agora.

Orlando Tambosi disse...

Gostei da análise, Ercy, mas não vejo ruptura entre a ciência dita tradicional e a contemporânea.

E Morin é demasiado holista para o meu gosto.

Abs.

Ercy Soar disse...

Tambosi,
desnecessário dizer que discordo de vc. Morin não coloca em xeque a ciência tradicional, apenas sugere q o mito da neutralidade e objetiva precisa ser superado. O mesmo vale pra F. Capra, que, não é holista, mas sistêmico. Estamos falando de conceitos como multicausalidae, retroalimentaçao e circularidade. Seguirei no Gray, depois deste primeiro capítulo, que falta acabar, vamos ver outras coisas.
Obrigado pelo comentário.
Abraço

Orlando Tambosi disse...

Diosmelibre desse Capra místico, caro Ercy! Não disse que Morin desmereça a ciência.
Quanto à idéia de neutralidade, acho que não cabe nem para sabão...
Mas, sem objetividade, simplesmente não há conhecimento - principalmente o científico.
Abandonando a objetividade, estaremos no breu dos diversos relativismos.
Por aí você já vê que sou um objetivista feroz...

Ercy Soar disse...

Ok, ok... vamos esquecer Capra e o Tao, que entraram de gaiatos nesta conversa. Até porque pensei apenas no Capra de "As conexoes ocultas", que nao tem nada de misticismo. Vamos voltar a Morin. Quanto à objetividade, ela está aí como norte, como ideal, senão não existiria ciencia at all, mas, vamos reconhecer, não existe como se quer fazer pensar, até porque as agencias financiadoras e as corporações acadêmicas estão sempre presentes definindo prioridades. E há o viés emocional do pesquisador, na formulação de hipóteses e na interpretação de dados. Tudo isso pode ocorrer mais no campo das ciências humanas, mas não apenas...

Orlando Tambosi disse...

Ercy, a propósito da sempre mal compreendida objetividade, recomendo queleias "Mente, linguagem e sociedade", do John Searle. É um dos melhores livros que já li sobre o tema. A objetividade, segundo ele, deve ser entendida no modo ontológico e no modo epistemológico. Nenhum deles elimina o tal "sujeito", tão precioso aos relativistas em geral.

Ercy Soar disse...

Pelo jeito, estamos nos aproximando de um entendimento... Interessante que na semana passada estava relendo um capítulo de "Minds, brains & science", do mesmo Searle, sobre o livre arbítrio. Voltarei ao tema aqui.
Obrigado pelo comentário e pela indicaçao.