10 dezembro 2006

O mal de Sachs


Este é um livro que recomendo a todo mundo, especialmente aos colegas médicos e estudantes de medicina.

O mal de Sachs é o segundo romance de Martin Winckler, pseudônimo de Marc Zaffran - um médico convertido à literatura, segundo a tradição de Tchekhov, Céline e tantos outros. Trata-se de uma espécie de diário do "médico rural" dr. Bruno Sachs, mas com uma particularidade: os narradores são os pacientes - velhos e velhas, homens, mulheres e crianças que habitam a comunidade imaginária de Play, a secretária do dr. Bruno, a mãe, os colegas médicos. Aos poucos as descrições que eles fazem vão traçando não só o perfil desse homem atencioso na relação com os pacientes - embora se mantenha solitário e misterioso em sua vida privada -, mas dos próprios clientes, cujas manias e idiossincrasias revelam-se ora cômicas, ora dramáticas.Tudo gira em torno da figura do médico, em torno da vulnerabilidade e da perspectiva da morte, e o "mal" de Sachs, nesse caso, é a própria medicina. O dr. Sachs é tão vulnerável e humano quanto os seus pacientes, um homem extremamente preocupado com a ética da profissão, um médico que tem ao mesmo tempo horror a médicos e a consciência de que é impossível deixar de ser um deles.Embora recuse para este livro o rótulo de autobiografia, Winckler teve uma experiência de dez anos como clínico geral no interior da França, e não há dúvida de que as consultas relatadas por ele são fruto de observação. Sua invenção narrativa está em transformar os pacientes em observadores do médico.Lançado em janeiro de 1998 na França, O mal de Sachs logo conquistou o público e a crítica e em 1999 foi transformado em filme.
Aqui vão algumas "pílulas" do Dr. Sachs:

- O que é que o senhor tem?
- Bem, sei lá, o senhor é que tem que me dizer! Eu não sou médico

A descrição de todas as doenças catalogadas me passou diante dos olhos, e imaginei que, se conhecesse os sintomas de todas as afecções mortais, e se os rememorasse regularmente, ficaria imunizado contra elas. Bem mais tarde, compreendi que as doenças dos tratados são elas mesmas apenas o produto de uma sistemática arbitrária. Na vida real, não se morre como nos livros de medicina.

Os médicos mentem, não porque têm medo de dizer a verdade, mas porque-os-pacientes-preferem-não-saber. Afinal de contas, não vamos forçá-los!
Os médicos atormentam, não para fazer sofrer, mas porque-querem-tentar-tudo-para-salvar-seus-pacientes. Afinal de contas, não vamos recriminá-los!
Os médicos experimentam, não porque são sádicos, mas porque-têm-que-se-fazer-a-ciência-avançar. Afinal de contas, não vamos impedi-los!

A primeira vez que senti um tumor no seio foi no seio de uma mulher com quem eu estava fazendo amor.


Um comentário:

Julia disse...

E um assunto interessantiiissiimooo!!!!

Volto aqui a noite melhor pra formular em português um assunto como este sobre medicos AQUI...lhe digo existe certas situações dificil de compreender aqui no pais.