25 outubro 2008

isabella e eloá


Estes são os nomes mais recentes da tragédia brasileira. A tragédia da violência urbana e da deterioração de valores morais, entre os quais o maior, o direito à vida. Entretanto quero me referir especialmente à outra tragédia, a dos nossos meios de comunicação de massa, especialmente a televisão, e seus impactos nas pessoas. Sim, “tragédia” é uma palavra apropriada neste caso também.

É claro que os nomes acima se referem aos brutais mortes da menina Isabella Nardoni, e mais recentemente, da adolescente Eloá. Em ambos os casos, o tema se tornou recorrente nas consultas e sessões psicoterápicas. Alguns de meus pacientes permaneceram horas diante do televisor, a procura das respostas a estas perguntas: o que leva um pai a tal grau de crueldade, e um jovem a tal descontrole? (E estou aqui presumindo a culpa dos indiciados, que é como a mídia trata esses casos.)

Uma paciente comentou que vira a entrevista realizada com um médico (provavelmente psiquiatria forense, ou seja, especializado numa área que estuda as chamadas “mentes criminosas”), sobre o rapaz que seqüestrou e supostamente matou Eloá. A queixa da paciente foi de que o médico nada respondeu, nada acrescentou ao que já havia sido dito, e não a ajudou a entender o “por que?” Sem a intenção de fazer uma defesa de classe, e sem ter visto a entrevista em questão, ponderei-lhe o seguinte, e se não o fiz desta forma, o faço agora: (a) possivelmente o psiquiatra não havia examinado o rapaz, que se encontrava isolado; (b) por imposição do código de ética médica, e pelo bom senso, ele não poderia emitir, portanto, qualquer conclusão diagnóstica, senão algumas hipóteses baseadas em generalizações; (c) o médico possivelmente tentou falar uma linguagem compreensível à população em geral, o que restringe sensivelmente o grau de aprofundamento sobre o que a psiquiatria pode sugerir a partir de casos semelhantes; e (d) provavelmente não houvesse mesmo, naquele momento, nada de novo a acrescentar.

Trágicos são os efeitos da cobertura desses casos pela mídia. Ora, direis – para usar uma expressão machadiana – isto ocorre em todos os países, e a Inglaterra é conhecida por sua imprensa marrom, sensacionalista. Não ocorre, entretanto, que se dê tanto espaço em horários nobres de televisão, com o claro objetivo de manter a população mesmerizada e cada vez mais envolvida emocionalmente. Sabemos que existem muitas outras Isabellas e Eloás, que não recebem o mesmo tratamento midiático. Os canais de TV exploram à exaustão os atributos talvez mais preciosos do “caráter nacional”: a generosidade, a solidariedade e a boa índole das pessoas comuns, que as levam a se identificar profundamente com o sofrimento alheio.

A capacidade da mídia de capitanear esses sentimentos é poderosa, mantendo incessantemente a expectativa de que algo de novo vai ser revelado no próximo momento. A paciente já mencionada revelou ter ficado horas a fio diante da TV, nos dias que se seguiram a este último evento, tentando entender os meandros de uma mente tão conturbada, apesar do desconforto emocional. Sofria, angustiava-se, mas não conseguia deixar de ver, como uma compulsão. Outra paciente, que revelou semelhante reação, afirmou evitar (com sucesso) assistir a filmes violentos, mas que, neste caso, não se tratava de filme...

Acontece que, assim como nos filmes de terror ou de violência, pode haver também a identificação, geralmente inconsciente, com os aspectos mais agressivos e primitivos dos “bandidos”, e esta seduz tanto o expectador quanto a anterior.

Recentemente a revista Veja publicou um artigo sobre o sucesso e a multiplicação das séries de TV americanas, os sitcoms, em que os protagonistas são violentos e criminosos. Um exemplo emblemático é “A Família Soprano”, que retrata a complexidade subjetiva de um chefe mafioso de New Jersey. Tony Soprano, o boss da família, mostra-se um pai carinhoso, um marido nada fiel, mas que sempre volta ao conforto do lar, e os laços de fidelidade e proteção com a “família”, no sentido que o termo possui na máfia. Ele até mesmo procura uma psicoterapeuta (e a produção parece ter contratado uma boa consultoria neste sentido) para ligar com suas contradições internas. O expectador identifica-se com os aspectos “bons” do personagem, mas não deixa de, em algum nível inconsciente, se identificar também com os mais primitivos e agressivos, o que faz da série, um sucesso de público.

Num momento de crise financeira, em que se discute a necessidade e extensão de mecanismos de controle sobre os mercados financeiros, talvez seja necessário também abrir a discussão sobre os possíveis mecanismos de auto-regulação dos meios de comunicação de massa no que diz respeito à divulgação desses crimes. Algo como existe no campo da publicidade e propaganda e nas indicações de faixas etárias para os programas de televisão. Ou teremos que aguardar que a sociedade se auto-eduque para não se deixar fisgar pelos apelos do jornalismo barato e sensacionalista, praticado mesmo pelos canais de TV com maior penetração e com maior poder de formar opinião. Afinal, sempre haverá quem queira fazer da violência um caminho para ter seu minuto de fama, e, como neste último episódio, pode acabar em tragédia para as vítimas, e também para a sociedade como um todo.


23 outubro 2008

van gogh



Desde sua morte, e infelizmente nunca antes disso, o pintor holandês Vincent van Gogh tem sido objeto de fascínio e curiosidade. E não apenas pelos apreciadores de sua arte, mas também por estudiosos da mente humana que se dedicam a reconstruir os caminhos que o levaram ao suicídio, em 1890. Apesar de ter vivido em completo ostracismo, um século depois o mundo o veria transformado no autor das telas mais valiosas da história e um verdadeiro ícone da cultura pop. Sinal disto é o sucesso que faz um vídeo largamente difundido na internet, em que desfilam seus quadros ao som da canção “Vincent”, que Don McLean fez em sua homenagem.

O irmão de Vincent, Theo, com quem trocou cartas durante toda a sua vida, e de quem dependia para sua sobrevivência, trabalhava numa galeria em Paris. Como forma de pagamento, Theo ofereceu ao pintor Paul Gauguin a possibilidade de dividir a casa com Vincent, em Arles, ao sul da França, onde poderia usufrir da boa luminosidade (e dar algum apoio emocional ao já perturbado irmão). É anedótico o fato de que, ao cabo de nove turbulentas semanas, Gauguin já não suportava o gênio indomável do holandês, e mudou-se às pressas, episódio que foi bem representado no filme “Sede de Viver” (Lust for life, 1956, direção de Vincente Minnelli), estrelado por Kirk Douglas e Anthony Quinn, nos respectivos papéis, e que rendeu ao primeiro uma merecida indicação ao Oscar.

Van Gogh tem sido um desafio para os médicos, sobretudo psiquiatras, pelo fato de ter vivido a maior parte de sua vida atormentado por desequilíbrios emocionais, pela crônica incapacidade de estabelecer relacionamentos duradouros, por seu comportamento irascível, sua impulsividade e suas oscilações de humor. O episódio da auto-mutilação, em que corta o lobo da orelha esquerda, é revelador do sofrimento mental que o obrigou a inúmeras internações psiquiátricas e culminou com o tiro no peito, quando tinha apenas 37 anos de idade, embora já estivesse precocemente envelhecido.

Eu mesmo, como professor de psiquiatria, utilizo reproduções de seus quadros em minhas aulas sobre transtornos de humor, nos quais ficam bem caracterizadas as diferentes fases de seu estado de espírito. Mas não há consenso no meio científico – e estamos muito longe disto - sobre qual a verdadeira natureza de sua doença, ou doenças. Entretanto, recentemente foi pubilicado o livro “A doença e a arte de Vincent van Gogh” (Casa Leitura Médica, 2008), que lança luzes (e, não fosse seu conteúdo médico, talvez se pudesse dizer que são luzes amarelas e vibrantes) sobre a vida e obra desse pintor. A autora, Elza Yacubian, é professora do Departamento de Neurologia e Neurocirurgia e chefe da Unidade de Epilepsia da Universiade Federal de São Paulo. Diga-se de passagem, os neurologistas também puxam a brasa para sua sardinha, vendo nas crises de van Gogh uma forma de epilepsia, embora este não seja o caso...

Elza Yacubian enumera e discute um enorme número de possíveis diagnósticos que ajudariam a explicar não só o gênio de Van Gogh mas também sua obra. Existem indicações de que Vincent possa ter sofrido de epilepsia, sífilis, intoxicação por chumbo, abuso de absinto, porfiria, além de transtornos psiquiátricos, e seus bem documentados sintomas podem sugerir esquizofrenia, transtorno bipolar do humor ou transtorno de personalidade borderline, para ficarmos apenas com alguns. Particularmente, considero muito plausível o diagnóstico de transtorno bipolar, por suas freqüentes oscilações de humor, que foram evoluindo para um estado que denominamos, em psiquiatria, de “episódio misto”, no qual se misturam elementos de depressão e excitação, geralmente com expressões de irritabilidade e impulsividade. Fecha parênteses.

O mais interessante, nesse livro, é que sua autora não se limita a buscar explicações para a personalidade e para o comportamento social de Van Gogh, mas também para suas preferências artísticas. É claro que as alterações de humor refletem-se nas cores e nas pinceladas, mas Yacubian sugere que os raios e círculos luminosos ao redor das lâmpadas ou de outras fontes luminosas possam ser resultantes de seu glaucoma. Uma possível intoxicação digitálica (o digital era uma planta utilizada em vários tratamentos, inclusive de transtornos mentais) pode também explicar sua predileção pelo amarelo, já que promove uma visão amarelo-esverdeado, assim como as manchas circundadas por coronas, como em seu famoso “A noite estrelada”.

Seguramente algum leitor haverá de protestar contra o que escrevi acima, ou considerar tudo isso uma intromissão ilegítima na obra de um grande artista, e uma apreciação inoportuna de sua obra, a partir de um olhar médico. Não lhe tiro alguma razão de pensar assim. Quero afirmar que, no que me diz respeito, nada disso modifica a admiração pela obra desse genial – e genioso – pintor, e nem tampouco a apreciação de sua originalidade, construída arduamente com as tintas do sofrimento, mas também com um incessante trabalho e amor à arte.


Em tempo: clique na imagem de van Gogh para assistir a um vídeo de seus auto-retratos.



07 outubro 2008

miles davis



Fonte: Zsite

Minha motivação foi publicar a excelente foto. Aproveite Miles no Tonight Show em 1964


06 outubro 2008

jazz




A origem da palavra JAZZ, segundo o site Clube do Jazz

Uma coisa é certa: a palavra jazz existia na linguagem falada muito antes do nascimento da música. Quem garante são os pesquisadores Peter Tarnony (Les Cahiers de Jazz) e Henry O. Osgood (So This is Jazz).

Outros autores, como Tecker (The Real Americanism) e Harold Wentworth (American Dialect Dictionary) citam os termos gism e jasm, oferecendo várias interpretações: jasm era utilizado nos estados do sul como sinônimo de energia e entusiasmo; em 1860 este vocábulo indicava uma mulher particularmente apaixonada; em 1886 era utilizado para significar valor, força, talento, etc; e no final do século XIX, como sinônimo de virilidade.

Em 1915, no “Lem's Café” de Chicago, o trombonista de Nova Orleans, Tom Brown, apresentou seu grupo como “Brown Dixieland Jass Band”. Quase ao mesmo tempo, Nick La Rocca, Larry Shields e Eddie Edwards formaram o grupo “Original Dixieland Jass Band”, que em 1917 gravou em Nova York o primeiro disco onde aparecia a palavra jass no nome do grupo.

Em 1916, o “Dictionary of Americanism” de Mathews incluía a referência “gastou-se muito para formar a jass band de Bert Kelly”...O próprio Kelly declarou à revista Variety, em 1957: 'Tive a idéia de empregar esta expressão popular do longínquo Oeste, para indicar nosso modo de tocar em 1914”.

Segundo o relato de Kelly, a palavra jass nasceu no Oeste e dali passou a Chicago e depois a Nova York. É possível que tenha sido realmente isso, pois conforme o “Dictionary of Americanism”, Bert KeIly era líder de uma jass band.


Dica pra quem gosta de jazz


05 outubro 2008

04 outubro 2008

kate lehman



Susmita

Elise

Juline


Óleos sobre tela de Kate Lehman


03 outubro 2008

memórias do subsolo


Fiódor Dostoiéviski, em Memórias do subsolo:


Sobre a racionalidade do comportamento

Oh, dizei-me, quem foi o primeiro a declarar, a proclamar que o homem comete ignonímias por desconhecer os seus reais interesses, e que bastaria instruí-lo, abrir-lhe os olhos para os seus verdadeiros e normais interesses, para que ele imediatamente deixasse de cometer essas ignonímias e se tornasse, no mesmo instante, bondoso e nobre, porque, sendo instruído e compreendendo as suas reais vantagens, veria no bem o seu próprio interesse, e sabe-se que ninguém é capaz de agir conscientemente contra ele e, por conseguinte, por assim dizer, por necessidade, ele passaria a praticar o bem? [...] E se porventura acontecer que a vantagem humana, alguma vez, não apenas pode, mas deve até consistir justamente em que, em certos casos, desejamos para nós mesmos o prejuízo e não a vantagem?

Razão verus vontade

Pensai no seguinte: a razão, meus senhores, é coisa boa, não há dúvida, mas a razão é só razão e satisfaz apenas a capacidade racional do homem, enquanto o ato de querer constitui a manifestação de toda a vida, isto é, de toda a vida humana, com razão e com todo o coçar-se. [...] Que sabe a razão? Somente aquilo que teve tempo de conhecer (algo, provavelmente, nunca chegará a saber; embora isto não constitua consolo, por que expressá-lo?), enquanto a natureza humana age em sua totalidade, com tudo o que nela existe de consciente e inconsciente, e, embora minta, continua vivendo.




Da resenha de Bruna Callegari:

Memórias do subsolo é um livro perigoso. Aviso, antes de tudo, porque só se percebe quando já se está completamente envolvido por ele. É nesse momento que a leitura se torna prazer, porém um prazer amaldiçoado, absolutamente agressivo, quase masoquista e vicioso, e por isso perigoso.

Publicado em 1864 na revista literária Época, fundada por Dostoiévski e seu irmão Mikhail, o romance nos traz um homem desencantado, funcionário da baixa burocracia russa, que mora com o empregado Apólon num modesto apartamento no subsolo de um edifício. Angustiado e pessimista, esse homem sem nome nos revela, por sua própria voz, um absoluto desprezo pelo mundo a sua volta e, ao mesmo tempo em que escolhe a solidão, parece, em certos momentos, amargurar-se ainda mais com ela.

Ora, o que cargas d’água esse tal homem do subterrâneo está querendo me dizer? Que droga de maluco ele é? O leitor se pergunta a todo o momento, mas, na realidade, não se pode entender completamente esse homem. A única certeza que ele nos dá é a sua profunda aversão pelo racionalismo e pela mentalidade positivista, marcantes do século em que vive: “(...) dois e dois não são mais a vida, meus senhores, mas o começo da morte. Pelo menos, o homem sempre temeu de certo modo este dois e dois são quatro, e eu o temo até agora.”

Esse homem do subsolo, portanto, é o retrato impiedoso da constituição de nossa sociedade moderna, fundamentada na razão iluminista, e de suas contradições. Ele é o embrião de toda a produção chamada madura de Dostoiévski: Crime e castigo, O idiota, Os demônios e Irmãos Karamazov, em que a profunda complexidade e ambigüidade do humano moderno, já presentes em nossa personagem, são levada ao extremo. A relação agônica entre desejo e culpa e a linha frágil que separa a demência da razão, marcas do subsolo que nos fazem como baratas tontas durante a leitura, são ainda mais intensamente exploradas por Dostoiévski nessas obras posteriores, em que inevitavelmente se vê o espectro do nosso homem.


02 outubro 2008

indignation



Nos últimos dois livros de Philip Roth - o maior escritor americano vivo - o tema central é claramente o terror do envelhecimento. Em Homem comum, o protagonista e narrador inicia seu relato em seu próprio funeral (teria também Roth lido Memórias Póstumas de Bras Cubas?), para depois relatar o périplo de doenças e incapacitações crescentes (além da solidão) pelas quais passou. Em Fantasma sai de cena, publicado no ano passado, um escritor recluso há anos nas montanhas da Nova Inglaterra (à moda de Salinger), retorna à sua NY para tratamento da incontinência urinária, e revive o desejo sexual que já não pode realizar, a perda da memória, e os fantasmas do seu passado.





Recém lançado nesse mês de setembro, nos EUA, Indignation rompe com essa reflexão sobre velhice e morte, e retorna a temas mais propriamente políticos. A narrativa se inicia com as memórias de Marcus Messner, recuando ao início da Guerra da Coréia, em 1950. Então com 19 anos de idade, Marcus é filho de um açougueiro judeu em Newark e, até então, vinha sendo preparado para assumir o negócio do pai. Fugindo a ser convocado a lutar no novo conflito, ao destino dos primos mortos na II Guerra Mundial, e às expectativas de uma vida medíocre, Marcus vai estudar no Winesburg College, em Ohio. Daí pra frente, que não se espere um happy ending de Philip Roth...
Em sua resenha publicada no NYRB deste mês, Charles Simic afirma:

More and more, in Roth's fiction, history and the individual are interdependent. He writes about the experience and the accompanying moral conflicts of those left at the mercy of events and ideas over which they have no power, the kind of people for whom official history has no place while ideology, too, passes over them in silence. It's no exaggeration to say that Roth has been appalled by what has happened politically to his country since the days of Nixon and Vietnam. [...] His powerful new novel, Indignation, seethes with outrage. It begins with a conflict between a father and son in a setting and circumstances long familiar from his other novels going back to Portnoy's Complaint, but then turns into something unexpected: a deft, gripping, and deeply moving narrative about the short life of a decent, hardworking, and obedient boy who pays with his life for a brief episode of disobedience that leaves him unprotected and alone to face forces beyond his control in a world in which old men play with the lives of the young as if they were toy soldiers. Roth's novels abound in comic moments, and so does Indignation. His compassion for his characters doesn't prevent him from noting their foolishness.

I can't hardly wait do read it!


29 setembro 2008

machado de assis


Machado de Assis faleceu em 29 de setembro de 1908. Em sua homenagem, publico algumas caricaturas recolhidas na web (a primeira é de Baptistão, e não tenho os créditos das demais). Mais abaixo, a propósito da morte, trechos de seu primeiro grande sucesso, e a obra que marca sua maturidade como escritor: Memórias Póstumas de Brás Cubas. Os três segmentos referem-se, respectivamente, ao momento da morte de Brás Cubas, descrito pelo próprio, já no início do livro; uma parte do relato do delírio que teve pouco antes de falecer; e a frase final, já reproduzida por aí à exaustão...










Agora, quero morrer tranqüilamente, metodicamente, ouvindo os soluços das damas, as falas baixas dos homens, a chuva que tamborila nas folhas de tinhorão da chácara, e o som estrídulo de uma navalha que um amolador está afiando lá fora, à porta de um correeiro. Juro-lhes que essa orquestra da morte foi muito menos triste do que podia parecer. De certo ponto em diante chegou a ser deliciosa. A vida estrebuchando-se no peito, com uns ímpetos de vaga marinha, esvaía-se-me a consciência, eu descia à imobilidade física e moral, e o corpo fazia-se-me planta, e pedra, e lodo, e cousa nenhuma.

...

Os séculos desfilavam num turbilhão, e, não obstante, porque os olhos do delírio são outros, e via tudo o que passava diante de mim, - flagelos e delícias, - desde essa cousa que se chama glória até essa outra que se chama miséria, e via o amor multiplicando a miséria e via a miséria agravando a debilidade. Aí vinham a cobiça que devora, a cólera que inflama, a inveja que baba, e a enxada e a pena, úmidas de suor, e a ambição, a fome, a vaidade, a melancolia, a riqueza, o amor, e todos agitavam o homem, como um chocalho, até destruí-lo, como um farrapo.

...

Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas.


22 setembro 2008

sinapses









1. Microscopia eletrônica colorizada, mostrando as vesículas de neurotransmissores e a sua presença na fenda e na membrana pós-sinaptica
2. Microscopia eletrônica
3. Rede neural em imagem colorizada
Clique nas imagens para ampliá-las.

A etimologia da palavra sinapse, conforme verbete do Online Etymology Dictionary:

synapse
"junction between two nerve cells," 1899, from Gk. synapsis "conjunction," from synaptein "to clasp," from syn- "together" + haptein "to fasten." Related to apse. Introduced by Eng. physiologist Sir Michael Foster (1836-1907) at the suggestion of Eng. classical scholar Arthur Woollgar Verral (1851-1912).
Conheça mais sobre neurociências aqui.


19 setembro 2008

o troglodita





O troglodita Hugo Chávez, no melhor estilo do "realismo socialista", modelo de artes plásticas mandatório durante os plúmbeos tempos da ditadura stalinista, cultivado também na China e demais países comunistas no século passado, que sobrevive ainda hoje em lugares como Cuba e Coréia do Norte (e, ao que parece, logo será hegemônico na Venezuela), que exalta os líderes enquanto conduzem as hordas de supostamente felizes trabalhadores rumo ao progresso social, sob a proteção do pendão nacional, ou do respectivo partido... (urrrghhh)

O proto-ditador, desta vez, expulsou representantes da ONG de direitos humanos, a pretexto de ameaça à soberania nacional, em mais um flagrante atentado à liberdade de imprensa em seu país.
A HRW afirmou em seu relatório que "em seus esforços para conter a oposição política e consolidar seu poder, o governo do presidente Hugo Chávez tem debilitado as instituições democráticas e as garantias dos direitos humanos na Venezuela". Eles escreveram, Chávez não perdeu a oportunidade de confirmar!


18 setembro 2008

17 setembro 2008

na praia


Tendemos a ver somente o que já conhecemos, e só podemos nomear o que nos é permitido. As famílias têm regras muito estritas a este respeito. São os tabus familiares. Em algumas não se pode falar da morte, ou do câncer, ou da doença mental... São aqueles casos em que todo mundo sabe, e todo mundo faz de conta que não. Quando os sentimentos não são ditos, as crianças crescem sem aprender a nomeá-los, e aquilo que não pode ser nomeado não pode ser conscientizado, e não pode ser elaborado, e não pode ser expresso em palavras, e se transforma em sintomas, especialmente em sintomas físicos. Trata-se de uma condição que a psicanálise denomina de alexitimia, ou seja, a incapacidade (a) de usar palavras (lexi) para expressar os sentimentos (timia).

Um belo exemplo de como os tabus familiares – que se estabelecem para supostamente proteger aqueles que de outra forma seriam vistos como diferentes, ou estariam expostos a algum sofrimento – é descrito por Ian McEwan, em Na praia, novela na qual o protagonista cresce numa família cuja mãe é doente mental, mas cuja “diferença” fica encoberta pela fantasia compartilhada de que tudo está normal. No entanto,


a fantasia só podia durar enquanto não fosse falada. Eles cresceram no interior dela, e só puderam viver com neutralidade os absurdos dessa fantasia porque nunca os nomearam. [...] As crianças não ficavam envergonhadas de ouvir q mãe lhes contar coisas que elas sabiam não poder ser verdadeiras. Ela não tinha um dia movimentado pela frente, na verdade não passara a tarde inteira fazendo geléia de amora. Não eram falsidades, mas expressões do que a mãe de fato era, e eles estavam determinados a protegê-la – em silêncio. Foram portanto memoráveis os poucos minutos quando Edward, aos catorze anos, viu-se sozinho com o pai no jardim e ouviu pela primeira vez que a mãe era deficiente mental. [...] Se mais alguém tivesse dito aquilo sobre sua mãe, Edward se veria obrigado a partir para a briga e para as injúrias. Mas, ao ouvir num silêncio hostil essa calúnia, no fundo se sentiu aliviado. É claro que era verdade, e ele não podia combater os fatos. Na mesma hora, tratou de se convencer de que sempre soubera.


16 setembro 2008

15 setembro 2008

barranco abaixo


Em toda criança há um homem em potencial, um ser perverso. O homem nasce ruim e a sociedade o piora. Por amor à natureza, pelo equilíbrio ecológico, pela salvação dos vastos mares, é preciso acabar com essa praga.

...

E não podia ser diferente, regidos que somos pelas leis de Murphy e da termodinâmica que estipulam que: tudo que está bem estraga e tudo o que vai mal piora.

...

Meu futuro está nas mãos do meu passado, que o determina, e do acaso, que é cego. E, como disse Bach, é fácil tocar cravo: basta bater na nota certa com a força certa na hora certa.


Fernando Vallejo, em O despenhadeiro.

13 setembro 2008

história do pranto



Em História do Pranto, o escritor argentino Alan Pauls, o mesmo de O Passado, revela uma capacidade rara de desenhar cenários minimalistas que abrigam personagens complexos. Seu texto está repleto de construções de subjetividades raras, de tipos humanos que não se encontram nas esquinas, e de estados de espírito muito particulares. Cada parágrafo é uma longa digressão de livre-associações de idéias que exigem, às vezes, uma concentração descomunal e que se volte ao seu início. Mas há também os sentimentos universais que fazem de todos nós seres parecidos, e permitem que nos encontremos nos outros, e nas longas frases dos longos parágrafos desse livro, cujo protagonista é uma criança – depois jovem adulto – cuja principal característica “é a sensibilidade. Escutar, chorar, às vezes, e, muito de vez em quando, também falar. Falar, quando acontece, é o estágio superior”.

Aqui, Pauls descreve o processo de cicatrização das feridas psíquicas. O apagamento gradual do sofrimento, o seu esmaecimento, sem no entanto que desapareça totalmente, já que estarão para sempre presentes nos porões da alma, e podem a qualquer momento ser despertadas.



Mas com os anos, expulsa das coordenadas de tempo e de lugar em que se passou, a cena perde vitalidade, desidrata-se e contrai-se, como o órgão extirpado resseca se não é logo acolhido pelo tecido pletórico de sangue e nervos de um novo organismo, até transformar-se numa moléstia ínfima, que quase não ocupa espaço nem é preciso dissipar, tanto se enfraqueceu sua energia hostil, ainda que na primeira oportunidade, assim que entra na órbita de uma ofuscação maior ou mais atual, convocado por um desses signos que, de imprevisto, sem propósito, fazem com que o presente mais banal rime com uma porção de passado atroz...

17 agosto 2008

Por quem chora Diego?


Diego Hypólito chora pelo povo brasileiro!
O pífio desempenho do Brasil nestas Olimpíadas é uma repetição de todas as edições anteriores e, pelo que tudo indica, nada se está fazendo para superar suas raízes. De um lado temos um sistema educacional do qual pouco temos a nos orgulhar, e de outro uma exacerbada emotividade dos atletas que mais atrapalha que ajuda. Somos “cordiais”, como nos diz Sérgio Buarque de Holanda; sem esquecer que tal cordialidade é um sub-produto do sistema de compadrio do Brasil colônia. Junte-se a isso nossa formação étnica e uma forte influência da religião católica, aqueça-se por aproximadamente cinco séculos e, voilá, eis aí a fórmula do que se poderia chamar de “caráter nacional”. Será que somos um povo cordial demais para sermos vencedores?
Os indicadores internacionais de desempenho educacional revelam que, salvo honrosas exceções, vivemos uma situação calamitosa, especialmente se lançarmos um olhar sobre os ensinos básico, médio e profissionalizante. O Brasil ocupa o 76º lugar no ranking mundial da educação elementar elaborado pela UNESCO e publicado no final de 2007. (No ano anterior havia ocupado do 72º lugar!) A educação para o esporte está incluída nesse quadro desalentador, e continuamos nos enganando a este respeito insistindo em fazer de casos isolados (o sucesso relativo de alguns atletas em campeonatos mundiais de atletismo, judô ou natação) a fonte de falsas ilusões, que insistem em cair por terra.
Mas o problema principal do desempenho brasileiro nessas competições é mesmo a carga emocional vivida pelos atletas, que levam sobre os ombros o peso de serem salvadores desta nossa Pátria. Um-a-um eles se desculpam, ao final, por não terem sido “capazes de dar essa alegria ao povo brasileiro”. Não bastasse aquilo que já é atávico no brasileiro – sua emotividade – a imprensa, e especialmente a Rede Globo de televisão e seus canais SportTV, são em larga escala responsáveis pelo baixo rendimento de nossos atletas, ao se fazerem porta-vozes das supostas expectativas populares, geradas por estes mesmos veículos. Neste caso, já não falo do desempenho coletivo da delegação, mas daqueles que, isoladamente, teriam boas chances de subirem ao pódio.
A extrema pressão exercida por essa mídia sanguessuga resulta repetidamente em fracasso, pois os atletas sentem-se engolfados pelo ufanismo e pela ânsia de medalha, bandeira e hino. Aconteceu com Diane dos Santos em Atenas, aconteceu com Diego Hipólito em Pequim. O choro convulsivo de Cielo Filho revela o sobre-humano esforço de um menino que tomou a si a enorme tarefa de ser herói da pátria, e que, se a levou a termo foi principalmente por seus méritos pessoais. Seu choro foi patético e, até este momento, não o vi se repetir em nenhuma outra ocasião durante os jogos. Nem mesmo o simpático e gordinho lutador de judô que conquistou a primeira medalha de ouro na história da Mongólia comemorou tanto.
O entusiasmo nacionalista distorce a percepção das nossas reais chances, e as reduz ainda mais, ao fazer de cada atleta, de cada equipe, responsável pela honra nacional e pela alegria de todo um povo. Enquanto as TVs americanas dão boletins discretos sobre o desempenho dos vencedores, somos submetidos a infindáveis horas de louvação aos nossos atletas – tanto aos perdedores quanto aos vencedores. Como dizia Schopenhauer, a espécie mais barata de orgulho é o orgulho nacional. Em nosso caso, há ainda a influência de um catolicismo dos mais retrógrados, que justifica o conformismo, a submissão e a identificação com os mais fracos e oprimidos. Esta é uma versão que faz do Sermão da Montanha o centro de uma lógica derrotista. São bem-aventurados os que sofrem, os pequeninos, os perdedores. Eles terão a recompensa eterna. Eis a grande diferença com o calvinismo que fez dos Estados Unidos uma grande nação: nele, serão merecedores do reino dos céus aqueles que o fizerem por merecer, com seu árduo trabalho! A Globo, na falta dos vencedores, apega-se aos perdedores fazendo deles heróis. São vencedores na vida, pelo que conseguem fazer diante do pouco que o país lhes oferece. Merecem nosso reconhecimento, mas não os louros dos campeões.
Quem irá prestar a nossos atletas, quando retornarem, a ajuda profissional para superarem o massacre a que foram submetidos? Serão os mesmos que os “prepararam” para enfrentar as competições? Não é difícil prever que alguns deles venham a adoecer física e psiquicamente. Por outro lado, como aspirar à realização das Olimpíadas no Brasil oferecendo o presente desempenho? Em termos de investimentos na educação e nos esportes, encontramo-nos a anos-luz da China. E não somos bem-aventurados por nosso fracasso. Não seremos jamais. Está na hora de arregaçarmos as mangas!


01 julho 2008

Psicoterapias


O texto abaixo foi escrito para servir de material de apoio às aulas sobre psicoterapia que ministro no Curso de Medicina da UNISUL. Para quem pretende fazer, ou já está fazendo um tratamento psicoterápico, ele pode servir como uma introdução ao tema, e ajudar a se localizar nesse complexo mundo de teorias e técnicas.

Este post é uma reedição. Ainda sobre este tema, veja também o post sobre o vínculo de reconhecimento na psicoterapia

introdução

Então, terapia é o que dizemos que ela é, ou, dito de outro modo, os nomes com os quais operamos, os princípios explicativos que usamos e a realidade que criamos com uns e outros. (Paul Watzlawick)

O termo “psicoterapia” – etimologicamente, o tratamento da mente – tem dado margem a muita confusão. Não é fácil localizar o seu surgimento e sua clara distinção de muitos procedimentos que fogem ao campo das práticas ditas científicas. Podemos reconhecer a presença de efeitos psicoterápicos nas práticas xamânicas das sociedades primitivas, nas práticas religiosas em geral, assim como em inúmeras outras formas de sugestão mental e nas atuais terapias ditas “alternativas”. Somente a partir do século XIX a psicoterapia começou a ser estudada sistemática e cientificamente, e neste sentido a obra de Freud deve ser considerada como um marco divisório.
Uma definição aceitável de psicoterapia é oferecida por Luis Carlos Osorio (2004), que propõe a utilização do termo – no sentido restrito da palavra – para designar todo o “processo sistemático, com fundamentação no conhecimento dos psicodinamismos da mente, e que, através da instrumentação de uma relação interpessoal (terapeuta/paciente), propõe-se a determinar mudanças no funcionamento mental do indivíduo” (p. 4).
São praticamente infinitas as formas de psicoterapias. As várias técnicas e estratégias terapêuticas dependem dos modelos teóricos abraçados por cada um e dos objetivos terapêuticos de cada caso em particular. Depende delas qual o material a ser prioritariamente trabalhado (os sintomas ou as motivações inconscientes, por exemplo), quais as atitudes do terapeuta são mais apropriadas (mais ativo ou mais passivo), quais intervenções (se mais sugestivas ou mais interpretativas), e a adoção de determinado enquadramento (freqüência dos encontros, disposição do espaço, etc.).
Gelder, Mayou e Geddes (2002) relacionam seis aspectos que, explícita ou implicitamente, estão presentes em praticamente todas as formas de psicoterapia:
1. Boa aliança de trabalho: relação de confiança baseada nos aspectos maduros e adaptativos do paciente (e do terapeuta);
2. Escuta empática: capacidade de empatia, ou seja, de colocar-se no lugar do outro, sem se confundir com este; e de continência, que significa ser capaz de tolerar os sentimentos e comportamentos do paciente;
3. Auxílio na expressão das emoções: ajudar a identificar, nomear e expressar sentimentos que estão na fonte do sofrimento psíquico;
4. Função pedagógica, como esclarecimentos, sugestões e interpretações: refere-se ao auto-conhecimento e a todo o processo de aprendizado, sobre si mesmo e sobre a natureza do sofrimento, sendo mais explícita nas modalidades de apoio e cognitivo-comportamentais;
5. Apoio e encorajamento: auxílio ao paciente na tarefa de exploração dos próprios sentimentos, fantasias e impulsos, e no processo de mudanças pessoais e relacionais;
6. Reforço às capacidades adaptativas: valorizar os mecanismos adaptativos, maduros, e as estratégias de enfrentamento às limitações pessoais e aos sintomas.



psicanálise e psicoterapia psicodinâmica

A psicanálise é um conjunto de teorias sobre o funcionamento mental e a origem dos transtornos psíquicos, e ao mesmo tempo um método terapêutico. Ela foi fundada por Freud no início do século passado. A psicoterapia psicodinâmica, também denominada de orientação psicanalítica, é derivada do corpo teórico da psicanálise (por exemplo, a transferência e os mecanismos de defesa), embora apresente mudanças na técnica terapêutica. Ambas têm por objetivo aumentar o conhecimento (insight) de conflitos, afetos, fantasias e impulsos – sobretudo de natureza inconscientes – que estejam na origem de sintomas psíquicos e de dificuldades adaptativas. A psicanálise está fortemente baseada no princípio de induzir e interpretar a transferência (o conjunto de sentimentos infantis do paciente em relação ao analista). A psicoterapia psicodinâmica, vale-se dos mesmos pressupostos teóricos, mas não tem por objetivo incentivar a transferência, embora freqüentemente trabalhe com este conceito.
A técnica da psicanálise baseia-se na utilização do divã e no desenvolvimento da transferência; na comunicação de todos os pensamentos (livre associação) e no relato de sonhos; na manutenção de um enquadramento, também chamado de setting (condições nas quais ocorre o tratamento: horas fixas, número de sessões, constância do contexto terapêutico); e na interpretação e elaboração dos conteúdos mentais. Ela tem sua indicação principal para os pacientes com condições de tolerar o tipo de relacionamento que se estabelece (já que o terapeuta se coloca numa posição de aparente passividade), e de lidar com abstrações e simbolizações. Além disso, o paciente precisa ter capacidade de insight, ou seja, de olhar para dentro de si mesmo, de refletir sobre as próprias motivações. Pacientes com transtornos mentais graves, como os psicóticos e os portadores de déficits cognitivos, não se beneficiam deste tipo de ajuda, exceto quando utilizadas técnicas adaptadas (assim como no caso das crianças, com as quais se utilizam técnicas lúdicas). A psicanálise é uma boa indicação para as pessoas que buscam um maior conhecimento de si mesmas, a resolução de conflitos ou falhas no próprio desenvolvimento, e a modificação de aspectos estruturais da personalidade.
Na psicoterapia psicodinâmica a relação se transcorre face-a-face e, de forma geral, o terapeuta participa mais ativamente. O terapeuta pode lançar mão de amplo repertório de intervenções para promover conversações que conduzam a novos insights e de promover mudanças. Hector Fiorini (1978) relaciona uma série de intervenções que fazem parte do processo terapêutico, que aqui menciono de forma modificada e reduzida: (a) interrogar o paciente, pedir-lhe dados precisos, ampliações e aclarações do relato; explorar em detalhe suas respostas; (b) proporcionar informação, o que inclui a orientação inicial ao paciente sobre os procedimentos que constituem a psicoterapia; (c) confirmar ou retificar os conceitos do paciente sobre sua situação ou sobre a realidade externa; (d) clarificar, reformular o relato do paciente, de modo a que certos conteúdos e relações do mesmo adquiram maior relevo; (e) recapitular, resumir pontos essenciais surgidos no processo exploratório de cada sessão e do conjunto do tratamento; (f) assinalar relações entre dados, os temas, as suas seqüências, e capacidades manifestas e latentes do paciente (ou seja, conscientes e inconscientes); (g) interpretar o significado dos comportamentos, motivações e finalidades latentes, em particular os conflituosos; (h) sugerir atitudes determinadas, mudanças a título de experiência, ou novas medidas terapêuticas, quando se mostrar necessário.
Mas, atenção! Embora o terapeuta possa eventualmente “sugerir” algo (p.ex., perguntando “o que poderia acontecer se você...”) isto não significa que na terapia psicodinâmica, e muito menos na psicanálise, o terapeuta ensine ativamente novas formas de comportamento ou de pensamento. Portanto, a função pedagógica, principalmente aquela conduzida ativamente pelo terapeuta (ao aconselhar, instruir ou dar tarefas), neste caso é menos importante do que outros aspectos da atividade terapêutica.

terapia cognitivo-comportamental

A TCC resulta da combinação de técnicas comportamentais e de técnicas provenientes da terapia cognitiva de Aaron Beck, cujo pressuposto central é o de que os sintomas resultam de formas disfuncionais e mal adaptativas de pensamento. Como o próprio nome deixa claro, esse conjunto de técnicas baseia-se na modificação de aspectos do pensamento (cognição) e do comportamento do indivíduo e, conseqüentemente, também dos sentimentos em relação aos outros e a si próprio. A TCC tem sido reconhecida como eficaz para o controle de sintomas de vários transtornos mentais, entre os quais os obsessivo-compulsivos, fóbicos, de pânico, depressivos, alimentares e, inclusive, de personalidade. Trata-se de um modelo de interação psicoeducativa, no qual o terapeuta ocupa uma função muito mais diretiva e pedagógica que nas terapias baseadas no conhecimento psicanalítico.
De forma geral, a terapia cognitivo-comportamental segue os seguintes pressupostos: (1) análise comportamental: registro dos pensamentos e comportamentos em associação com eventos desencadeantes, e que nada ou pouco tem a ver com a “análise” feita pelo psicanalista; (2) aproximação gradual: organização de tarefas na forma de etapas a serem cumpridas; e (3) formato experimental: o incentivo a experimentar mudanças.
Do conjunto de técnicas utilizadas na terapia cognitivo-comportamental, algumas derivam mais diretamente do modelo de terapia cognitiva, enquanto outras são mais propriamente comportamentais. As técnicas cognitivas seguem quatro momentos, ou estágios, que são os seguintes: (a) o pensamento mal-adaptativo é identificado; (b) o pensamento é contestado; (c) formas alternativas de pensar são trabalhadas; e (d) são experimentadas novas formas de enfrentar situações.
As técnicas comportamentais incluem um conjunto de princípios e técnicas complementares, utilizadas em associação com as anteriores, e com maior ou menor ênfase dependendo do problema a ser tratado: (a) treinamento de relaxamento, para evitar a reação ansiosa; (b) exposição, principalmente nos transtornos fóbicos, com o que se busca a dessensibilização; (c) prevenção de resposta, principalmente nos rituais obsessivos, busca a supressão do ritual através do enfrentamento; (d) parada do pensamento, que a utilização de um estímulo que ajude a interromper o pensamento obsessivo; (e) treinamento de assertividade, utilizado especialmente para superar fobias sociais, com o objetivo de aumentar a confiança do paciente; (f) autocontrole, que inclui o uso de automonitorização e o auto-reforço; (g) manejo de contingências, ou seja, identificar e controlar comportamentos indesejáveis (por exemplo, explosões de raiva) e recompensar mudanças positivas; e (h) terapia de aversão, que é baseada no reforço negativo.

terapia familiar sistêmica

Quando se fala em terapia familiar sistêmica, ou simplesmente terapia sistêmica, se está referindo a uma concepção teórica que teve origem em várias áreas alheias à medicina, que incluem a Teoria Geral dos Sistemas, a Cibernética, e a Teoria da Comunicação Humana, que estudaram o comportamento de sistemas físicos, humanos e sociais. Entre as características gerais dos sistemas, que são aplicadas à família neste modelo, estão: (a) o todo é maior que a soma das partes; (b) cada parte só pode ser entendida no contexto do todo; (c) uma mudança numa parte afeta todas as partes; (d) o todo se regula através de circuitos de retro-alimentação; (e) os sistemas se mantém estáveis através do estabelecimento de padrões de funcionamento.
O sistema familiar pode ser dividido em subsistemas e faz parte de outros sistemas sociais maiores. Os sintomas são entendidos como expressões de problemas que afetam a todo o sistema, quer seja no campo da comunicação (por exemplo, um tema que é tabu na família), da hierarquia e das fronteiras (por exemplo, crianças que mandam mais que os pais, e que invadem espaços que deveriam ser somente destes), ou das transições nos ciclos de vida da família (por exemplo, as crises da adolescência e da aposentadoria).
As terapias sistêmicas estão indicadas numa gama de situações em que os problemas são mais “relacionais” do que propriamente “psíquicos”, especialmente em situações de conflitos conjugais, geracionais, e resultantes de mudanças no ciclo de vida da família (nascimento, adolescência, separação, morte, doença grave, etc.). A compreensão das dinâmicas familiares é importante também para no estudo da relação do médico com a família do paciente (Soar Filho, 2003).

modalidades grupais

Há várias técnicas terapêuticas desenvolvidas para o atendimento de várias pessoas ao mesmo tempo. A orientação dos terapeutas pode variar, mas em alguns casos a técnica é mais ou menos específica para o atendimento de determinados grupos. Por exemplo, as psicoterapias de grupo podem ser realizadas segundo uma orientação psicanalítica (psicoterapia analítica de grupo), segundo as técnicas psicodramática, transpessoal, gestáltica, TCC, ou outras. Estes grupos terapêuticos são geralmente heterogêneos, ou seja, formados por pessoas de diferentes origens e com diversos problemas. Há grupos que são homogêneos, formados por pessoas com problemas semelhantes, como os dependentes químicos. Os grupos de TCC são geralmente deste tipo, e podem ser dirigidos, p.ex., a pacientes obsessivo-compulsivos ou com transtornos alimentares.
Por fim, existem as terapias que atendem a pessoas do mesmo grupo familiar, e que podem ser conjugais ou familiares. Estas também podem ser realizadas segundo várias orientações, inclusive a psicodinâmica. Entretanto, o modelo que foi desenvolvido especificamente para o atendimento de casais e famílias é o da terapia sistêmica.

referências bibliográficas

Fiorini, H.J. (1978) Teoria e técnica de psicoterapias. Rio de Janeiro: Francisco Alves.
Gelder, M.; Mayou, R. & Geddes, J. (2002) Psiquiatria. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan.
Osorio, L.C. (1996) O futuro da psicanálise e outros ensaios correlatos. Porto Alegre: Mercado Aberto.
Soar Filho, E.J. (2003). O médico e a família do paciente. Em: A. Cataldo Neto; G.J.C. Gauer & N.R. Furtado (org.). Psiquiatria para estudantes de Medicina. Porto Alegre: EDIPUCRS.

sugestões de leitura

Luepnitz, Deborah A. (2006) Os porcos-espinhos de Schopenhauer. Rio de Janeiro: José Olympio.
Yalom, Irvin D. (2006) Os desafios da terapia. Rio de Janeiro: Ediouro.
Yalom, Irvin D. (2007) O carrasco do amor . Rio de Janeiro: Ediouro.


02 novembro 2007

28 agosto 2007

As teorias da identidade (II)


(continuação deste post)

A noção de pessoa humana existe em todas as culturas, e já aparece na Antiguidade, com termos que compreendem uma gama de significados que vão de “alma” a “mente”, passando por “animo, alento, espírito”: em sânscrito alman, em grego psyche, em latim animus e spiritus. Esta superposição de significados existe ainda hoje no idioma alemão, com o termo Seele, que se refere tanto à alma quanto à mente.
Como já foi dito na primeira parte deste artigo, a concepção de pessoa ou indivíduo, tal como o entendemos atualmente, não tem sido a mesma ao longo da história, nem em todas as culturas. Em várias sociedades ainda não contaminadas pela cultura ocidental moderna, o Eu tende a ser entendido não como uma unidade autônoma e independente, mas como parte de um todo maior. A idéia de pessoa, ou do “si-mesmo” é, nessas culturas, muito mais contextual e relacional. Por exemplo, entre os Zulu, na África meridional, existe a seguinte expressão: umuntu ngumuntu ngabantu, que significa “você é apenas uma pessoa por causa das outras pessoas”. O conceito de humanidade, nessa cultura, inclui não apenas as outras pessoas, mas também os outros seres vivos e falecidos, e os ambientes naturais e materiais que dão sustentação à vida.
Um segundo exemplo nos é fornecido pela noção de nisba, presente na cultura Sefrou, do Marrocos. O nisba é a partícula do nome de toda pessoa que a identifica com algum grupo de parentesco ou afinidade, significando “nascido em tal lugar”, “filho de fulano”, “de tal tribo”, etc. No que diz respeito à concepção de pessoa, portanto, os Zulu e os Sefrou já antecipavam as tendências atuais da ciência em pensar o mundo em termos sistêmicos, com o ser humano integrando seus contextos relacionais e ecológicos.
Entretanto, na cultura ocidental contemporânea, a noção de pessoa e de Eu tem uma conotação muito mais individualista. Vimos que esta noção começa a ser construído na Grécia Antiga, com Sócrates. Durante toda a Idade Média, o indivíduo deixou de ser pensado como um agente autônomo, e estava predestinado em grande parte a ser o que era pela estrutura rígida da sociedade feudal e pela influência da igreja, num período que viria a ser denominado de Escolasticismo. Nesta concepção teológica, ocorre o “desaparecimento” do Eu; o ser humano perde sua capacidade de produzir conhecimento sobre o mundo e sobre si mesmo; e as verdades são apenas aquelas reveladas por Deus na Bíblia, e interpretadas pela Igreja. Tal situação viria a se modificar no Renascimento, por ocasião da Reforma Protestante, o Iluminismo e o surgimento do liberalismo burguês. O Renascimento, de fato, significou um “novo nascimento” da idéia de indivíduo como ser independente, responsável por suas escolhas, e capaz de pensar.
Uma manifestação desse nascimento do sujeito moderno encontra-se na literatura, com as obras introspectivas de Shakespeare, cheias de questionamentos acerca do que é a vida e a morte, o amor, e todos os outros sentimentos que caracterizam a condição humana. Aí está Hamlet a se perguntar: ser ou não ser...? Na filosofia, encontramos a famosa frase de Descartes, que foi um dos filósofos mais importantes desse período, e que define a condição humana exatamente pelo fato de sermos seres pensantes: cogito, ergo sum, ou seja, penso, logo existo.
De fato, é a capacidade de pensar, recuperada no período da Modernidade, assim como a liberdade individual, que vai dar forma à concepção de sujeito ainda dominante em nossa cultura. Não apenas René Descartes, mas outros filósofos como David Hume e John Locke, ocuparam-se bastante em entender como se constrói o saber e, por conseqüência, como o indivíduo se constitui enquanto um ser autônomo.
Mas ainda não havia surgido uma disciplina científica bem definida que se dedicasse ao conhecimento da mente humana, o que ocorreria apenas no início do século XX, com o aparecimento da Psicologia e da Psicanálise.