10 novembro 2006

A metamorfose


Numa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregor Samsa deu por si na cama transformado num gigantesco inseto. Estava deitado sobre o dorso, tão duro que parecia revestido de metal, e, ao levantar um pouco a cabeça, divisou o arredondado ventre castanho dividido em duros segmentos arqueados, sobre o qual a colcha dificilmente mantinha a posição e estava a ponto de escorregar. Comparadas com o resto do corpo, as inúmeras pernas, que eram miseravelmente finas, agitavam-se desesperadamente diante de seus olhos.
Que me aconteceu ? - pensou. Não era nenhum sonho. O quarto, um vulgar quarto humano, apenas bastante acanhado, ali estava, como de costume, entre as quatro paredes que lhe eram familiares. Por cima da mesa, onde estava deitado, desembrulhada e em completa desordem, uma série de amostras de roupas: Samsa era caixeiro-viajante, estava pendurada a fotografia que recentemente recortara de uma revista ilustrada e colocara numa bonita moldura dourada.
É deste modo que Kafka inicia a estória de Gregor Samsa, publicada em 1912, quando o autor contava vinte e nove anos. É um de seus poucos romances que foram finalizados e publicados, e é marcado pela sua forma peculiar de compor literatura. A partir de sua metamorfose, Samsa passa a viver uma nova rotina, na qual deve permanecer em casa e à distância de qualquer visita. O trabalho, obviamente, é abandonado e seu quarto se transforma em todo o seu mundo.
A estória de Samsa é uma alegoria da vida de um homem comum que exerce atividades burocráticas. Já nesta novela o termo "kafkiano", associado ao que é inusitado ou absurdo, está plenamente justificado. Os aspectos autobiográficos também estão presentes. Conta-se que Kafka, quando chegava em casa depois do trabalho (nada mais que um conjunto de rotinas burocráticas), deitava-se no sofá da sala e comentava que se sentia como um grande inseto, referindo-se às limitações impostas ao uso de sua criatividade. Na estória, o grande inseto, deitado em sua cama, esperneia-se tentando voltar à posição natural, com as asas para cima e as pernas para baixo, na qual teria domínio de seus movimentos. O clima mantido por Kafka antecipa as situações de outras de suas obras, em grande parte inacabadas, em que é caracterizado um ambiente de angústia e de desconcerto, atribuído por muitos ao início da era que culminaria com a ascensão de Hitler e com a Segunda Guerra Mundial.

Para ver a versão de Kuper animada, clique na ilustração ao lado.
Este clássico da literatura estrangeira foi adaptado para o formato de quadrinhos, pelo aclamado artista gráfico Peter Kuper. O estilo de Kuper, uma fusão dos quadrinhos norte-americanos com o expressionismo alemão, faz com que a prosa de Kafka ganhe vida, revivendo todo o humor e sagacidade do texto original de uma forma que irá surpreender tanto os leitores de Kafka quanto os leitores de graphic novels.
Certamente, como afirma o quadrinhista Peter Kuper, "os personagens angustiados de Kafka em cenários de realidade alterada são feitos sob medida para essa mídia." E, para ilustrar as palavras iluminadoras de Kafka, Peter Kuper buscou inspiração nos desenhos quase surrealistas de Winsor McCay, o criador da tira Dream of the Rarebit Fiend (em português, literalmente, Sonho do viciado em queijo gratinado), publicado pelo jornal nova-iorquino Evening Telegram.
A habilidade de Franz Kafka em abordar a condição humana com reviravoltas inesperadas e brilhante talento faz com que seu trabalho se mantenha atual mesmo quase um século depois, como se tivesse sido criado para refletir o clima da era em que vivemos. "Suas histórias de julgamentos grotescos e burocracias inflexíveis não parecem mais surreais que as manchetes que vemos nos jornais diários", enfatiza Peter Kuper.
O livro foi editado também no Brasil.
Para conhecer o The Kafka Project, clique na lápide:

2 comentários:

Arthur disse...

Lendo sobre as as facilidades ou dificuldades da expressão verbal, dos momentos em que nos sentimos tão pequenos quanto as formigas ou tão grandes quanto as montanhas, dos sonhos que voamos, me lembrei da passagem abaixo. A primeira vez que a ouvi foi numa daquelas inefáveis aulas em que metade da turma estava dormindo e a outra estava fora da sala. Sim, estava lá quase acordado e quase dormindo quando ouvi algo diferente, um som estranho que vinha lá da frente, nas proximidades do quadro negro, não sabia se estava sonhando ou se algo realmente interessante havia me acordado:

Once upon a time, I, Chwang-Tse, dreamed I was a butterfly, fluttering hither and thither, to all intents and purposes a butterfly. I was aware only of following my fancy as a butterfly and unconscious of my human individuality. Suddenly I awoke, and there I lay, myself again. Now I do not know whether I was then a man dreaming I was a butterfly or whether I am now a butterfly dreaming I am a man. Chwang-Tse

Ercy disse...

e isto me lembra do que diz, por sua vez, jorge luis borges, em "sete noites":

...estamos dormindo e vamos sonhando este longo sonho que é a vida.