25 novembro 2006

Pensamento chinês



Ideograma: lógica, poesia, linguagem.


Haroldo de Campos (um dos expoentes da poesia concreta) organizou esse livro, editado pela EDUSP em 1994, que ajuda a desvendar alguns dos mistérios dos ideogramas e da forma de pensar dos chineses. É também dele a tradução deste ensaio que faz parte da coletânea, publicado originalmente em 1939, do qual faço aqui um resumo.

A TEORIA DO CONHECIMENTO DE UM FILÓSOFO CHINÊS

Chang Tung-Sun

I

Os problemas filosóficos do Ocidente não são exatamente os mesmo que ocupam o espírito dos filósofos chineses. Parece haver certa diferença entre os processos intelectuais chineses e os ocidentais. A teoria ocidental considerou o conhecimento como conhecimento universal da Humanidade, quando na realidade trata-se apenas de um tipo de conhecimento, existindo outros tipos em outras culturas.

Em resumo: é preciso tratar simultaneamente a teoria do conhecimento e a história cultural; não é apenas o pensamento social concreto que tem um fundamento social: as formas lógicas e as categorias teóricas também têm seus determinantes culturais; a diferença entre o pensamento ocidental e o oriental pode ser explicada a partir desse ponto de vista; e, a partir daí, pode-se compreender que a Filosofia ocidental é apenas uma forma particular de conhecimento característica da cultura ocidental e para uso dela.

II

Existe uma diferença entre o conhecimento perceptivo e o conceitual. O conhecimento conceitual é conhecimento interpretativo, e este é conhecimento teórico. A Ciência é uma síntese de dois tipos de conhecimento, sendo um a observação direta, e o outro a interpretação. Nenhum conhecimento pode dispensar seu conteúdo social, cuja emergência e existência só ocorrem no campo do conhecimento interpretativo.

III

Linguagem e pensamento são fundamentalmente inseparáveis. Todo pensamento, para articular-se, só o poderá fazer através da linguagem ou do símbolo. Se o pensamento se desenvolve com a linguagem e a linguagem é uma forma de comportamento social, então fica claro que, com exceção dos elementos experimentais, todo conhecimento é social.

IV

Com a gramática e a estrutura da frase surge a lógica. Os lógicos ocidentais consideram que a Lógica refere-se ao conjunto de regras do raciocínio humano. De fato, a Lógica aristotélica, que lhe deu origem, baseia-se evidentemente na gramática grega. O tipo de proposição “sujeito-predicado” não existe na Lógica chinesa. Por exemplo, não é possível escrever algo como “A se relaciona com B”. O que é possível é a seqüência de três caracteres, para indicar respectivamente “A”, “conexão”, e “B”.

V

A Lógica aristotélica está intimamente ligada ao verbo “ser”, de onde deriva uma “lei da identidade”. Nela, a substância é um simples derivado do sujeito e do verbo “ser”, que leva à idéia de “ente”. Um atributo deve ser atribuído a uma substância, de modo que a idéia de substância é absolutamente indispensável ao pensamento, assim como o sujeito é absolutamente indispensável à linguagem.

Na língua chinesa o sujeito não é essencial, e não existe nenhum verbo “ser” comparável à forma inglesa e das demais línguas indo-européias. Assim, o idioma chinês está repleto de frases com sujeito indefinido, como “havendo dedicação à benvolência, não há maldade”.

VI

O sistema chinês de lógica - se é que existe um - não está baseado na lei da identidade. Enquanto na lógica ocidetantal pensa-se em termos de "A e não-A", dando ênfase à exclusão, o pensamento chinês enfatiza a qualidade relacional entre acima e abaixo, bem e mal, alguma coisa e nada. Ele usa figuras de linguagem como "o uso inverso de uma palavra" e o "uso metafórico". Por exemplo, o conceito mais importante na China antiga referia-se a "céu" (t'ien), que tem como definição a "cabeça humana", ou tudo que fica acima da cabeça. Este é um método "indicativo".

No chinês , a lógica da exclusão dá lugar à "lógica de correlação" ou a uma "lógica da dualidade correlativa", que enfatiza o significado relacional entre "algo" e "nada", "cima" e "abaixo", etc. A explicação da palavra "vender", por exemplo, é dada por seu oposto "comprar". Por serem ideográficos, os caracteres enfatizam os signos, e o chinês interessa-se pelas inter-relações entre estes, sem se preocupar com a substância que lhes fica subjacente.

VII

A natureza ideográfica dos caracteres chineses influencia não somente a estrutura da linguagem, mas também o pensamento ou filosofia do povo. De acordo com o antigo pensamento chinês, primeiro vieram os signos e depois engendraram-se e desenvolveram-se as coisas (ao contrário da visão platônica). A característica do pensamento chinês é a atenção exclusiva às implicações correlacionais entre os diferentes signos, como yin e yang. Na China não há sequer a palavra substância.

VIII

Como a noção de substância se relaciona com a de causalidade, as Ciências ainda são determinadas, em sua maior parte, pelo conceito de causalidade. No pensamento ocidental, religião, Ciência, e materialismo são interdependentes. Compreende-se que com a identidade dever haver substância; com a substância, deve haver causalidade; e o átomo fica entre as duas. Na China, Céu e Deus não são pensados de maneira primordial. A união dos dois ideogramas tem o significado de Providência, não sendo uma entidade, tampouco uma substância. A lógica da correlação, a classificação não-exclusiva, a definição analógica têm, como fundo comum, o pensamento político, que é característico da cultura chinesa. [Este e os próximos tópicos necessitam uma leitura mais detalhada para sua melhor compreensão, sendo difícil resumí-lo em virtude da complexidade do tema.]

IX

É característico da mentalidade ocidental sempre se perguntar antes "o quê" é alguma coisa, enquanto a mentalidade chinesa dá ênfase ao "como". Enquanto o primeiro tipo de pensamento é mais apropriado para a passagem da religião à Ciência, o segundo só pode se desenvolver na esfera sociopolítica. Isto explica porque o pensamento chinês se descuida da Natureza, e volta-se mais aos assuntos Humanos. O pensamento chinês recorre mais à analogia do que a inferência. É típico disto a fórmula jen che jen jeh (algo como "Humanidade assim como homem"). Trata-se de uma "lógica de analogia", pouco apropriada para o pensamento científico, mas amplamente utilizada nas argumentações sociopolíticas.

X

Enquanto nas línguas ocidentais existem transformações gramaticais fonéticas, no chinês elas são ideográficas. Assim, a palavra inglesa sense pode assumir as seguintes formas: sense (senso, juízo), sensation (sensação), sensational (sensacional), sensible (sensato), sensibility (sensibilidade) [o autor menciona ao todo 14 palavras]. Em virtude do uso de flexões, casos, ou outras formas gramaticais, a "forma" constitui um elemento essencial para o pensamento do Ocidente. Os caracteres chineses, apesar de terem radicais, não tem raízes. Os radicais são utilizados apenas com finalidade classificatória; por exemplo, certas palavras pertencem ao domínio da água e outras ao domínio das plantas. Os ideogramas chineses não ficam sujeitos a transformações gramaticais; não há flexão, declinação nem conjugação.

XI

[O autor encerra o ensaio com sua proposta de uma teoria do conhecimento, e o seguinte comentário, que reproduzo na íntegra.] Se o leitor tiver tido a paciência de acompanhar toda a nossa análise, talvez lhe tenha parecido que o autor descambou para o ecletismo. Há, porém, ecletismo e ecletismo. Se o ecletismo se revelar útil, oferecendo uma visão mais sintética de todos os problemas tratados, não terão cabimento muitos pedidos de desculpas.


Pode interessar também:
The Topography Of Language

Um comentário:

invisivel disse...

Adorei conhecer post anteriores.
gostei mesmo.