30 novembro 2006

O encolhimento do mundo


Uma das metáforas mais poderosas para caracterizar a sociedade contemporânea é a de “compressão do tempo-espaço”, proposta por David Harvey (1992), com a qual ele se refere a “processos que revolucionam as qualidades objetivas do espaço e do tempo a ponto de nos forçarem a alterar, às vezes radicalmente, o modo como representamos o mundo para nós mesmos” (p. 219). Tais processos incluem a aceleração do tempo e a diminuição das distâncias que acompanham a rápida circulação do capital; o desenvolvimento de meios de transporte cada vez mais eficientes; a criação de uma rede mundial de telecomunicações que transforma o planeta numa aldeia global; e as relações de interdependência econômica e ambiental, acompanhadas do surgimento de uma consciência ecológica internacional. Esses fenômenos sociais se refletem na idéia de que vivemos na “espaçonave Terra”; de que vagamos todos nessa imensa nave-mãe, e qualquer coisa que se faça em seu interior afetará a todos os passageiros.
A compressão do tempo-espaço inicia-se na Era Moderna, ganha impulso com a Revolução Industrial, e atinge um grau até então impensável nas últimas décadas. As mudanças nas concepções de tempo e espaço ocorreram lentamente a partir da decadência do feudalismo europeu, com suas estruturas cristalizadas e relativamente estáveis, quando as qualidades finitas do lugar – um território intrincado de interdependência, obrigação, vigilância e controle – eram acompanhadas de rotinas de vida cotidiana bastante estáveis e sedimentadas na tradição. O Iluminismo instaurou um projeto de vida social planejada e controlada, a fim de promover a igualdade social e o bem-estar de todos. Essa mentalidade racionalizadora do tempo e do espaço encontrou no mapa, no relógio e no calendário instrumentos particularmente úteis.
A partir de meados do séc. XIX a economia mundial toma o rumo de um globalismo ainda mais radical, marcado pela fase de aceleração e expansão do capitalismo, e alavancado por desenvolvimentos tecnológicos, como o surgimento de redes ferroviárias, jornais diários, comunicações por telégrafo, navegação a vapor e, mais adiante, o rádio e o automóvel. Já então, o “encolhimento” do mundo passa a criar desafios para a manutenção das identidades locais e do sentido de continuidade histórica. Tais mudanças parecem requerer uma maior plasticidade do eu diante das qualidades fragmentárias e polivalentes do espaço na sociedade contemporânea. Elas refletem-se na filosofia e na cultura da virada do século xx, com o surgimento de movimentos nas artes plásticas como o cubismo, o surrealismo e o futurismo, assim como, na música, com o dodecafonismo.

O encolhimento do mapa graças a inovações nos transportes que aniquilam o espaço por meio do tempo. Na figura, a progressão em que ocorre este encolhimento desde 1500, quando a locomoção era feita por barco a vela e carruagens, a uma média de 16 km/h, até o advento do avião a jato, em 1960, com velocidade de 1.100 km/h.

Referência: HARVEY, D. (1992) Condição pós-moderna. São Paulo: Edições Loyola.


Um comentário:

Anônimo disse...

Olá, me surpreendi com a sua postagem, sendo este tema abordado pela geografia. Parabéns pelo interesse, isso demonstra que o conhecimento nao deve ser fragmentando em gavetinhas, caracterisitco do modelo cartesiano inserido na educadaçao brasileira.